Archive for the ‘Viagens’ Category

Tecendo a manhã

3 de outubro de 2009

Visitei hoje uma barraca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra… Em Paris!!!

Como?? Saiba em breve.

Neste fim de semana, o Brasil e Desenvolvimento realiza retiro político em Brasília para fixar as bases de uma nova etapa do grupo, de intensificação de nossa militância e atuação coletiva.  Estou distante fisicamente, e por isso quero usar este post para enviar uma mensagem para os amigos que estão reunidos pensando os rumos do grupo para os próximos meses e anos. Vamos juntos, construir o B&D pra mudar o Brasil!!!

Do nosso grande João Cabral de Melo Neto, sobre a necessidade, a força, o valor e a beleza da ação coletiva:

Tecendo a Manhã

1


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(A Educação pela Pedra)

Fonte: Jornal de Poesia

Tecendo o Amanhã

João Cabral de Melo Neto

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Fonte: Jornal de Poesia

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O financiamento das universidades na Alemanha e nos EUA

12 de setembro de 2009

Segundo uma colega alemã da minha turma de francês aqui em Lyon, a taxa cobrada de cada estudante alemão para cursar a universidade é de 500 euros por semestre, mil euros anuais. Ela disse que isso é recente, até há pouco tempo a universidade era gratuita para os estudantes.

Ela não paga porque é a terceira irmã da família a chegar ao ensino superior. Sua outra irmã, a 4ª, também não pagará. O critério é unicamente esse, segundo ela: totalmente objetivo, de acordo com o número de irmãos na família, não se levando a renda em conta (o que ela considera bizarro).

O DAAD informa:

Ensino superior alemão custa 33 bi de euros

As instituições de ensino superior (IES) públicas e privadas da Alemanha registraram, em 2007, despesas totais de 33,3 bilhões de euros em ensino, pesquisa e prestação de serviços de saúde, ou seja, 1,2 bilhão (3,6%) a mais que no ano anterior, divulgou o Departamento Federal de Estatísticas (Destatis). Mais da metade (19,2 bilhões de euros) destinaram-se às folhas de pagamento de pessoal nas IES. Os investimentos significaram 2,7 bilhões de euros. Os estabelecimentos universitários de saúde e medicina consumiram 15,8 bilhões em ensino, pesquisa e tratamentos. O aumento nas despesas foi compensado com alta também na arrecadação própria das instituições. Em 2007, os estudantes pagaram às IES cerca de um bilhão de euros, enquanto as receitas patrimoniais e de atividades econômicas atingiram 11,3 bilhões, sendo 90% deste valor arrecadado nos estabelecimentos de saúde. Principais patrocinadores das IES foram a Fundação Alemã de Pesquisa Científica (1,4 bilhão de euros), empresas (1,1 bilhão) e o governo federal (900 milhões).” (eu negritei)

Por outro lado, na minha turma de francês há também uma americana que acaba de concluir MBA em Stanford e de ser contratada para trabalhar no fundo de investimentos da universidade. Para se financiarem, as universidades americanas lançam-se no mercado: a universidade não apenas tem pesquisas financiadas por empresas, ela própria torna-se uma empresa que por vezes age no mercado com o único objetivo de maximizar seus lucros.

São modelos de financiamento que queremos para a Universidade brasileira? Eu ainda acho mais adequado mantê-la como serviço público de utilização gratuita. A propósito, escrevi na semana passada: A Universidade na encruzilhada dos serviços públicos no Brasil

PS: veja aqui notícia do DAAD sobre a despolitização da nova geração alemã. Achei péssimo saber que os jovens da Alemanha estão menos interessados não apenas pela política partidária, mas também por causas sociais e pelo meio ambiente. Será que existe relação entre essa despolitização e a recente instituição da cobrança de taxas na Universidade?

No que crêem os que não crêem?

25 de agosto de 2009

Escrevi o texto abaixo em 2006, como trabalho para a disciplina “Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica”, ministrada pelo professor Alexandre Araújo Costa (ele nos pediu para fazer uma afirmação qualquer sobre o direito e em seguida justificar se, e como, seria possível afirmar que ela era verdadeira). Mudei o título (fazendo uma referência ao livro que registra diálogos entre Umberto Eco e Carlo Maria Martini), cortei um pequeno trecho e publiquei-o num blog em 2007, quando constatei com algum espanto que, embora o texto já tivesse mais de um ano, eu não mudara de opinião desde então sobre o assunto tratado nele. Três anos depois, mantenho a mesma visão, a mesma atitude proposta pelo texto, embora talvez hoje seja capaz de elaborá-la um pouco melhor (em breve espero publicar um texto a respeito aqui).

A figura abaixo é uma litografia de Escher. São fascinantes todas as suas obras que trabalham o tema paradoxo, mas gosto especialmente desta (e ela tem tudo a ver com o texto abaixo) porque mostra o paradoxo da autoconstituição. Eu constituo a mim mesmo – ou, melhor dizendo, nós constituímos a nós mesmos. A imagem sintetiza o que penso sobre a verdade, desde um ponto de vista hermenêutico-existencial, de autofundação; e também, aliás, sobre Constituição, processo constituinte e povo.

Quem é o povo que fala nas Constituições? Quem é o “We, the people”  que dá início à Constituição  norte-americana? Em interessantíssimo debate na Faculdade de Direito da UnB no semestre passado , o professor Cristiano Paixão citava um texto de Derrida no qual ele dizia que o povo americano passou a existir justamente pelo próprio ato de dar-se a sua Constituição: o povo passa a existir como ente político a partir do momento em que se assume como sujeito político, num processo simultâneo  e recíproco (Constituição-povo) de autocriação; é o ato de constituir-se que o constitui (preciso ler ainda esse texto de Derrida, então ignorem terminologias imprecisas de minha parte).  Povo, Constituição, liberdade política, fundação, natalidade… Este é assunto para outro post, em que pretendo explorar algumas ideias de Hannah Arendt, Rosenfeld, Habermas e Derrida. Agora, deixemos de lado a digressão constitucional (que não foi gratuita, mas devida à minha intenção de demonstrar a conexão hermenêutico-existencial entre os dois temas) e voltemos à verdade:

escher-drawinghands

No que crêem os que não crêem?

“Brincadeira de criança, as opiniões humanas.”

Heráclito [1]

Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela [2] , tem razão quando diz que “a verdade é sempre um contato interior e inexplicável”: não sei explicar porque creio naquilo em que creio, o fato é que creio – “Pensar é um ato. Sentir é um fato”.

Por que creio em algo? A melhor resposta talvez fosse: creio porque creio. Esse juízo decorre de uma valoração subjetiva, uma intuição instintiva, assim como qualquer outro que pudesse fazer. Isso não significa que não forme minhas opiniões influenciado também – e predominantemente – por argumentos racionais; mas crer na razão é também subjetivo e intuitivo, de modo que apenas às vezes escolhemos ser (ou acontece de sermos) convencidos por ela.

Mas o “porque sim” ou o “creio porque creio” não costuma convencer as outras pessoas – vontade que nós costumamos ter. Para persuadir alguns, temos que dar ao nosso discurso uma aparência racional; outros poderão concordar conosco se apresentarmos argumentos de autoridade; outros poderão ser convencidos por uma poesia ou uma imagem.

É difícil evitar os exageros de posições extremistas: por um lado, a tentação de transformar a nossa visão sobre determinado assunto “na verdade” sobre ele; por outro, a de se negar que nossas opiniões tenham qualquer validade ou utilidade. O primeiro ponto de vista ignora que o conhecimento humano é uma criação humana e, como tal, incompleto, histórico, valorativo, subjetivo, cultural… O segundo compreende o que o primeiro ignora, mas, depois de negar o conhecimento absoluto, acaba por negar também o relativo, não o afirmando como conhecimento.

Sendo o conhecimento humano, demasiado humano, ele não é absoluto, mas isso não o invalida; é esse conhecimento que criamos e utilizamos – “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”, disse Terêncio [3] . Desprezar nossas verdades relativas e falhas pelo fato de elas não serem divinas (absolutas) é para quem quer ser Deus. Eu sou humano. Se não há verdade absoluta, se “a verdade é dividida em metades diferentes uma da outra”, como disse Drummond, isso não nos impede de optar pela nossa; cada um “conforme seu capricho, seu ilusão, sua miopia”.

Brinquemos, então, de criar e escolher verdades – mas a sério, com a seriedade com que brinca uma criança. Nunca nos esqueçamos de que nossas verdades são produto de uma brincadeira de criança. E nunca nos esqueçamos de que tal brincadeira é o que fazemos de mais sério em nossas vidas.

Eu, de acordo com o meu astigmatismo, vou escolhendo as metades que me agradam.

P.S.:

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

[A porta da verdade? Lembremos do próprio Drummond:

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta” …

“E agora, José?”

“E agora, você?”]


[1] Citado por Michel Maffesoli em A parte do diabo (São Paulo: Record, 2004, p. 12).

[2] Romance de Clarice Lispector.

[3] Citado por Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte.

Liberdade surrealista: Éluard-Dalí

24 de agosto de 2009

Conheci este famoso poema na aula de francês, há umas duas semanas. Éluard o escreveu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando participava da resistência à invasão nazista na França. Isso torna o poema ainda mais especial, embora ele tenha transcendido a ocasião que impulsionou seu nascimento, comunicando uma mensagem universal de libertação.

Encontrei na internet uma tradução para o português à sua altura, feita por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade ainda nos anos 40. Aí vão as duas versões. A imagem é o Retrato de Paul Éluard, pintura de Salvador Dalí, de 1929, ano em que o poeta francês e o jovem gênio catalão conheceram-se, para o bem do surrealismo que ambos inauguravam. A comunhão estética entre eles era tanta, que Dalí acabou apaixonando-se e casando-se, logo em seguida, com Gala, a russa com quem Éluard era casado… O poeta continuou amigo de Dalí e de sua ex-esposa, claro; deve ter encarado tudo com muita naturalidade, num mundo afinal surrealista. Gala Éluard Dalí seria tema para inúmeras obras de Dalí, e seria sua esposa até morrer, em 1982 (alguns anos antes dele, de quem era 10 anos mais velha).

O retrato de Éluard compõe o acervo do Teatro-Museu Dalí (“o maior objeto surrealista do mundo“, criado pelo próprio Dalí – um artista plástico teatral como ele precisaria mesmo de um Teatro-Museu…), que visitei há alguns dias em Filgueres (pequena cidade onde ele nasceu, vizinha de Barcelona). Na semana seguinte, conheci o Espace Salvador Dalí, em Montmartre (Paris). Quando forem a Barcelona e Paris, respectivamente, não fiquem só com Gaudí, Miró, Picasso, Louvre, Orsay… Sonhar com Dalí – e Éluard – também vale muito à pena.

Éluard_Dalí

Do site Alguma Poesia:

Liberté

Paul Éluard

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Paul Éluard
In Œuvres Complètes
Éditions Gallimard
Paris, 1968

Liberdade

Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome (more…)