Archive for the ‘Utopia’ Category

B&D promove Roda-Viva com Mangabeira Unger na UnB!!!

14 de outubro de 2009

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Roberto Mangabeira Unger, professor de Harvard e ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), estará na UnB na próxima sexta-feira, dia 16 de outubro, às 10h00, no Auditório Joaquim Nabuco (prédio da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas, FA), para discutir o projeto de futuro do país.

O evento Pensando o Futuro do País, promovido pelo Grupo Brasil e Desenvolvimento, contará com a participação do DCE-UnB e do CADIR.

Lembrando que no próximo domingo haverá mais um encontro do 1º curso de formação política B&D, às 15h, também na FA. O texto desta semana é do professor Mangabeira Unger (trechos do livro O que a esquerda deve propor).

Em momento como esses, lamento estar na França… Pena que ainda não tenham inventado uma forma de se estar em dois lugares ao mesmo tempo.

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A emancipação pelos commons

10 de outubro de 2009

(Texto originalmente publicado no blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento)

Está nascendo o Partido Pirata do Brasil! Assim o define seu site:

O Partido Pirata é um movimento que surgiu no Brasil no final de 2007 a partir da rede Internacional de Partidos Piratas, organização pela defesa ao acesso à informação, o compartilhamento do conhecimento, a transparência na gestão pública e a privacidade – direitos fundamentais que são ameaçados constantemente pelos governos e corporações para controlar e monitorar os cidadãos. Não acreditamos na ‘propriedade intelectual’ e entendemos que sua defesa no âmbito digital implica no controle dos cidadãos e na supressão dos direitos civis e liberdades individuais fundamentais.

O Partido Pirata do Brasil defende ainda a inclusão digital, o uso de softwares livres e a construção de políticas públicas de forma efetivamente participativa e colaborativa.

Está  fora de dúvida que o movimento Pirata dá uma contribuição política enorme ao tornar essas importantíssimas causas mais visíveis publicamente e agir por mudanças e avanços concretos. O B&D tem plena afinidade com a ideia de que “compartilhar cultura não é crime“, e une-se aos movimentos pela reformulação do direito autoral e de patentes, inclusão digital, defesa da privacidade, adoção do software livre e transparência da administração pública.

Bandeiras fundamentais, mas será que são o suficiente para fundar um partido? Quais são as posições e propostas dos piratas para a educação, a saúde, o transporte, a moradia, a política econômica, a ambiental, a reforma política? Qual modelo de serviços públicos julgam mais adequado?

Um partido, a princípio, deveria formar-se pela unidade em torno de um projeto global de organização  da sociedade. Seria difícil orientar-se politicamente numa sociedade em que os grandes partidos fossem, por exemplo, os verdes defendendo causas ecológicas, os piratas mobilizados pelo direito à informação, à cultura e à privacidade, um outro partido atuando pela causa da educação pública de qualidade, um outro pela segurança pública, etc… Na hora de votar, o que o eleitor deve fazer, decidir qual é o tema mais importante e urgente e escolhê-lo em detrimento dos demais? E os eleitos, por sua vez, como agirão, se o programa de cada um é tão restrito e parcial? A formação de coalizões com coerência ideológica também será tarefa complicada se cada partido orientar-se somente para temas específicos, por mais importantes que sejam.

A função de um partido é justamente articular movimentos sociais que levantam bandeiras diferentes, mas que  podem ser compreendidas à luz de um projeto mais amplo, por fundamentarem-se em princípios e fins comuns. Essa comunhão não é dada, só pode existir como fruto de construção política: um partido tem de ser fruto da indignação, revolta, pensamento e ação conjunta de militantes piratas, sem-terras, socioambientalistas, sanitaristas, educacionistas… É do diálogo entre os movimentos, da busca de sentidos e causas comuns, que se constrói um partido, entidade que seja capaz de oferecer, articulando lutas concretas dos movimentos sociais, uma visão geral sobre a sociedade que se tem e a que se quer. É claro que o partido pode nascer sob impulso maior de um movimento apenas, mas necessariamente não pode reduzir-se a ele e parar aí!

Por outro lado, o movimento não deve ser reduzido a uma parte do partido: a autonomia de cada movimento é fundamental para a construção de uma democracia pluralista, reflexiva e capaz de renovar-se. Porém, o partido pode oferecer a cada pessoa que milita em um movimento a possibilidade de conferir ativamente um sentido mais amplo à sua ação, de dialogar com outros movimentos e participar da construção de um projeto de sociedade.

Colo abaixo fragmento do texto “A hipótese comunista“, de Slavoj Zizek, publicado há alguns meses na revista piauí (edição 34), em que ele expõe como a ideologia dos “commons” pode ser emancipatória para muito além do direito autoral e da internet. Sei que grande parte dos leitores deste blog não simpatiza com a palavra “comunista”. Eu também tenho cautela diante de quem se apresenta como tal, porque vários regimes totalitários instalados no século XX fundaram-se nessa ideologia. Contudo, temos de abandonar preconceitos e buscar compreender o que as  pessoas dizem para além dos ismos: não podemos aceitar ou rejeitar uma ideia apenas pela etiqueta que alguém põe sobre ela. É preciso cultivar nossa capacidade de lidar com a complexidade da política e da linguagem, que não se permitem aprisionar por rótulos simplificadores (embora estes tenham sua utilidade).

Sérgio Amadeu explica, em artigo indispensável sobre o assunto (O conceito de commons na cibercultura), que a defesa dos commons é feita tanto por liberais (Yochai Benkler, Lawrence Lessig) como por comunistas (Michael Hardt e Antonio Negri). Eu, de minha parte, sustento que a melhor forma de fundamentá-los está na ideologia republicana: res publica, a coisa comum, os commons… A complexidade do conceito de commons é a do republicanismo,  que pode ser entendido como produto de tensões entre liberalismo e comunismo, sendo diferente de ambos. Por questão de espaço, não poderei argumentar agora como as diferenças ideológicas de fundamentação e compreensão dos commons afetam diretamente as posições ante alguns temas concretos. Porém, essas diferenças não fazem dos diferentes grupos que defendem os commons inimigos ou adversários: elas não apagam o fato de que também temos muito em comum, inclusive o compartilhamento do mundo político, que construímos quando confrotamos nossas singularidades de forma aberta, complexa e criativa no espaço público. Isso aponta para a necessidade de reinventar a política, tarefa para a qual o Partido Pirata tem uma grande contribuição a dar, por sua inovadora forma de organização, que procura fazer-se de forma horizontal, não-hierárquica, colaborativa… Assunto para um outro texto!

Agora, à “hipótese comunista”: (more…)

Tecendo a manhã

3 de outubro de 2009

Visitei hoje uma barraca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra… Em Paris!!!

Como?? Saiba em breve.

Neste fim de semana, o Brasil e Desenvolvimento realiza retiro político em Brasília para fixar as bases de uma nova etapa do grupo, de intensificação de nossa militância e atuação coletiva.  Estou distante fisicamente, e por isso quero usar este post para enviar uma mensagem para os amigos que estão reunidos pensando os rumos do grupo para os próximos meses e anos. Vamos juntos, construir o B&D pra mudar o Brasil!!!

Do nosso grande João Cabral de Melo Neto, sobre a necessidade, a força, o valor e a beleza da ação coletiva:

Tecendo a Manhã

1


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(A Educação pela Pedra)

Fonte: Jornal de Poesia

Tecendo o Amanhã

João Cabral de Melo Neto

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Fonte: Jornal de Poesia

Ó vida futura, nós te criaremos!

27 de setembro de 2009

Não seremos inocentes do Leblon, não fugiremos para as ilhas, não seremos raptados por serafins.

WE were always waiting for this moment to arise

Ó vida futura, nós, os loucos, te criaremos – de mãos dadas!

“(…)
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.”

Carlos Drummond  de Andrade, Mãos dadas

“(…)
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.”

Carlos Drummond de Andrade, Mundo Grande

“Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?”

Fernando Pessoa, Mensagem

PS: Just when I thought I was out… they pull me back in!“.

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

Love or law?

28 de agosto de 2009

Posto hoje texto que uma amiga escreveu quando estávamos no 3º semestre da Faculdade, em 2006, e cursávamos a disciplina Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica. O professor Alexandre Araújo Costa pediu para que cada um respondesse à pergunta “O que é o direito?”, sendo francamente estimulado que os alunos respondessem aquilo que autenticamente pensavam e sentiam. A Mayra então escreveu este texto (que publico aqui com a sua autorização, claro), que, nas palavras (da época) de outro grande amigo, o João Paulo, “conseguiu expressar lindamente a torrente de sensações e indagações que dilacera esse reles ser que vos tecla e também os nobres e queridos colegas”.

(Quanto ao título do post, agradecimentos à @gabirondon, pela indicação via twitter do belíssimo poema “Law, Like Love” – “O Direito, como o Amor”, de H.W. Auden, traduzido por Henrique Araújo Costa).

O que é direito? – Por Mayra Cotta (2006)

Muito curioso ser perguntada sobre o que é Direito e hesitar em responder mesmo após um ano frequentando um curso universitário com esse nome. Acredito não ser possível chegar a uma definição. Sem querer entrar em toda aquela questão que envolve os problemas trazidos por definições, encontro as justificativas para tal impossibilidade ao verificar que, desde o momento em que fiz minha opção para o vestibular até o instante em que toco nas teclas de meu computador, minha idéia do que é Direito já mudou e se transformou por volta de dezessete mil quinhentas e vinte e duas vezes. E, provavelmente, durante o tempo transcorrido entre a impressão e a entrega dessas folhas, o conteúdo delas ficará desatualizado.

Durante o segundo grau, o Direito nada mais foi pra mim que um amontoado de códigos com folhas amarelas e cheias de poeira; um curso escolhido por pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno (mesmo nos dias quentes e secos de agosto!) e que adoram manter em seus vocabulários palavras caquéticas, que não foram usadas sequer uma dúzia de vezes em toda a história da língua portuguesa. A única explicação encontrada para ser o Direito um curso tão popular entre os jovens era a irresistível atração, especialmente urdida por todos os pais preocupados com a futura segurança financeira dos filhos, exercida pelos concursos públicos – faz Direito, meu filho, e se você não der certo em mais nada, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público. Maravilha!

Mas eu só queria entrar na Universidade. Poderia ser qualquer curso, qualquer um mesmo, eu queria apenas estar lá dentro. O estudo me encanta e o ambiente universitário exerce sobre mim uma sedução impossível de ser ignorada. Eu me imaginava, após passar no vestibular, como sendo iniciada num universo novo, cheio de possibilidades, inclusive a de mudar o mundo. Optei pelo Direito. Afinal, se nada der certo, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público.

Passei pra Direito. Ah, como me apaixonei pelo curso nesse primeiro ano! Por meio dele fui apresentada aos mais diversos autores e me foram trazidas instigantes questões as quais eu sequer desconfiava da existência. Ao longo desse ano, foi se formando em mim a idéia de um Direito todo-poderoso – apesar de a minha opinião sobre as pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno não ter mudado. Vi o quanto o Direito está presente no homem e o quanto a sociedade depende dele. Comecei a enxergar toda a evolução da História ocidental pela ótica do Direito e conheci como grandes mentes trataram do tema de maneira brilhante ao longo dos séculos. A partir daí, passei a encontrar o Direito em tudo. Era como se a todo momento eu o estivesse respirando. Muito além de um forma de ordenar a sociedade, o Direito era a própria sociedade se manifestando em uma de suas formas mais belas.

Um coisa, porém, me assustava. Era frequente o conselho de veteranos no sentido de que eu não precisava me preocupar com essa chatice do primeiro ano porque a parte boa e realmente importante ainda estava por vir. Parte boa e realmente importante? Então eu havia sido enganada e Direito não era nada daquilo que tinha visto?

Uma resposta a essas perguntas começou a ser delineada quando numa das primeiras aulas desse semestre um professor disse em toda a sua elegância que “Direito é código, ponto”. Um pensamento aterrador passou por mim: a magia havia acabado. Finalmente eu entraria no mundo no qual Direito e lei são sinônimos, onde é impossível estudar qualquer assunto sem um código à mão. Desesperador! Não, não pode ser isso.

Me encontro, nesse exato momento, como num vácuo entre experiências que acredito que serão bem diferentes uma da outra. Encerro a fase inicial que me encanta e adentro o mundo dos códigos. Ainda tenho em mim fresca a doce lembrança do Direito pelo qual me apaixonei durante o primeiro ano na Universidade e me preparo para o bombardeio de leis que está por vir. Mas serei forte. Aprenderei os códigos e entenderei o Direito como sistema, sem deixar, porém, que se apaguem em mim os encantos da época de caloura. Penso agora no Direito como algo vivo, grande, que existe para a sociedade e a partir da sociedade. Algo que ainda me oferecerá inúmeras possibilidades, inclusive a de mudar o mundo.

O que é Direito, Mayra Cotta
por Mayra Cotta – quarta, 3 maio 2006, 18:04

Muito curioso ser perguntada sobre o que é Direito e hesitar em responder mesmo após um ano frequentando um curso universitário com esse nome. Acredito não ser possível chegar a uma definição. Sem querer entrar em toda aquela questão que envolve os problemas trazidos por definições, encontro as justificativas para tal impossibilidade ao verificar que, desde o momento em que fiz minha opção para o vestibular até o instante em que toco nas teclas de meu computador, minha idéia do que é Direito já mudou e se transformou por volta de dezessete mil quinhentas e vinte e duas vezes. E, provavelmente, durante o tempo transcorrido entre a impressão e a entrega dessas folhas, o conteúdo delas ficará desatualizado.

Durante o segundo grau, o Direito nada mais foi pra mim que um amontoado de códigos com folhas amarelas e cheias de poeira; um curso escolhido por pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno (mesmo nos dias quentes e secos de agosto!) e que adoram manter em seus vocabulários palavras caquéticas, que não foram usadas sequer uma dúzia de vezes em toda a história da língua portuguesa. A única explicação encontrada para ser o Direito um curso tão popular entre os jovens era a irresistível atração, especialmente urdida por todos os pais preocupados com a futura segurança financeira dos filhos, exercida pelos concursos públicos – faz Direito, meu filho, e se você não der certo em mais nada, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público. Maravilha!

Mas eu só queria entrar na Universidade. Poderia ser qualquer curso, qualquer um mesmo, eu queria apenas estar lá dentro. O estudo me encanta e o ambiente universitário exerce sobre mim uma sedução impossível de ser ignorada. Eu me imaginava, após passar no vestibular, como sendo iniciada num universo novo, cheio de possibilidades, inclusive a de mudar o mundo. Optei pelo Direito. Afinal, se nada der certo, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público.

Passei pra Direito. Ah, como me apaixonei pelo curso nesse primeiro ano! Por meio dele fui apresentada aos mais diversos autores e me foram trazidas instigantes questões as quais eu sequer desconfiava da existência. Ao longo desse ano, foi se formando em mim a idéia de um Direito todo-poderoso – apesar de a minha opinião sobre as pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno não ter mudado. Vi o quanto o Direito está presente no homem e o quanto a sociedade depende dele. Comecei a enxergar toda a evolução da História ocidental pela ótica do Direito e conheci como grandes mentes trataram do tema de maneira brilhante ao longo dos séculos. A partir daí, passei a encontrar o Direito em tudo. Era como se a todo momento eu o estivesse respirando. Muito além de um forma de ordenar a sociedade, o Direito era a própria sociedade se manifestando em uma de suas formas mais belas.

Um coisa, porém, me assustava. Era frequente o conselho de veteranos no sentido de que eu não precisava me preocupar com essa chatice do primeiro ano porque a parte boa e realmente importante ainda estava por vir. Parte boa e realmente importante? Então eu havia sido enganada e Direito não era nada daquilo que tinha visto?

Uma resposta a essas perguntas começou a ser delineada quando numa das primeiras aulas desse semestre um professor disse em toda a sua elegância que “Direito é código, ponto”. Um pensamento aterrador passou por mim: a magia havia acabado. Finalmente eu entraria no mundo no qual Direito e lei são sinônimos, onde é impossível estudar qualquer assunto sem um código à mão. Desesperador! Não, não pode ser isso.

Me encontro, nesse exato momento, como num vácuo entre experiências que acredito que serão bem diferentes uma da outra. Encerro a fase inicial que me encanta e adentro o mundo dos códigos. Ainda tenho em mim fresca a doce lembrança do Direito pelo qual me apaixonei durante o primeiro ano na Universidade e me preparo para o bombardeio de leis que está por vir. Mas serei forte. Aprenderei os códigos e entenderei o Direito como sistema, sem deixar, porém, que se apaguem em mim os encantos da época de caloura. Penso agora no Direito como algo vivo, grande, que existe para a sociedade e a partir da sociedade. Algo que ainda me oferecerá inúmeras possibilidades, inclusive a de mudar o mundo.