Archive for the ‘Nordeste’ Category

O POVO AO PODER – Castro Alves

7 de dezembro de 2009

Em 1864, Castro Alves tinha 17 anos de idade, era estudante da Faculdade de Direito do Recife, militante e poeta republicano abolicionista. Para manifestar-se contra a repressão policial de um comício e a prisão do grande jornalista paraibano Antonio Borges da Fonseca, escreveu o vibrante poema “O povo ao poder”.

Lá se vão 145 anos, e o sonho de um Brasil republicano continua vivo na luta dos ocupantes da Câmara Legislativa do Distrito Federal: reivindicam poder para o povo, e lutarão até o fim – pacificamente – contra a utilização do aparato institucional para legitimar a violência e a opressão.

O Brasil que nasce na rua, na praça, sabe que a única saída republicana contra a corrupção plutocrática das nossas instituições é a resistência:

Precisamos rediscutir os projetos aprovados na CL-DF. Eles são fruto de uma política neoliberal orientada pela especulação imobiliária, a exclusão social, a violação aos Direitos Humanos, e a perda de direitos sociais. Eles não respondem às necessidades básicas da população. Não podemos nos calar! Convidamos toda a população e movimentos organizados a unirem-se pelo Fora Arruda, Paulo Octávio e toda a máfia, que há tempos destrói a dignidade do povo e da política da capital do país. Só o povo nas ruas pode conquistar o fim da corrupção.

Castro Alves também o sabia:

“O POVO AO PODER

Quando nas praças s’eleva
Do Povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…

Que o gigante da calçada
De pé sobre a barrica
Desgrenhado, enorme, nu
Em Roma é catão ou Mário,

É Jesus sobre o Cálvario,
É Garibaldi ou Kosshut.

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!

Senhor!… pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua seu…
Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos…
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira…
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem…nest’hora poluta

Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deixai-nos soltar um grito
Que topando no infinito

Talvez desperte o Senhor.

A palavra! Vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu’infâmia! Ai, velha Roma,
Ai cidade de Vendoma,
Ai mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhes os pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções…
Não deixais que o filho louco
Grite “oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações”.

Mas embalde… Que o direito
Não é pasto de punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal…
Ah! Não há muitos setembros,
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
(more…)

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Cabral, o descobridor poético do Brasil

12 de outubro de 2009

É verdade o que ensinam na escola: Cabral descobriu o Brasil. Mas é verdade pela metade: foi o João, não foi o Álvares…

O João das extasiantes descobertas poéticas, do sertão árido do Nordeste, do Recife, da Espanha, dos Severinos, do poema construído e depurado pela aspereza da pedra (do sono?), de galos e ovos engenheirados em poesia arquitetonicamente lapidada.

Anteontem, 9 de outubro de 2009, foi o aniversário de 10 anos da morte de João Cabral de Melo Neto, talvez o maior dos nossos poetas.  Alguns vídeos disponíveis no youtube tratam da sua obra. O Cordel do Fogo Encantado a interpreta no palco:

João, que supostamente não gostava de música e fazia poesia visual, sem melopéia, mas que soube “habitar o flamenco“…

Segundo Manoel de Barros, outro de nossos poetas maiores:

O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela.Tem o ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo”.

Eu tenho quase 22 anos, idade com a qual João publicou seu primeiro livro – Pedra do sono. Isso porque ele começou relativamente tarde no fazer poético! Até os 15 anos de idade, só queria saber mesmo de futebol. Foi o Drummond de Alguma poesia que o despertou: “O Carlos Drummond de Andrade, quando eu o li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele ‘Alguma Poesia’. Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia”.

Talvez o que me impressione mais no mundo cabralino seja sua capacidade de tornar visível a fundo, simultaneamente, o que há de mais concreto e de mais abstrato na realidade e na linguagem. Sabe falar das coisas de uma maneira antimetafísica, fazendo poesia do real, como Alberto Caeiro; mas João Cabral o faz com mais complexidade e sutileza, com um instinto de realidade mais apurado, que não se contenta em contemplar as coisas e descrevê-las poeticamente, mas procura construir poesia com elas. Se Caeiro nos faz contemplar passivamente, Cabral incita-nos à meditação reflexiva e criativa sobre a realidade. Qual realidade? A da natureza, do homem, da cultura, das relações sociais, da linguagem, todas trabalhadas pelo poeta pernambucano sob a perspectiva de busca ilimitada de sua concretitude, com seus olhos de telescópio.

É claro que nessa construção sertaneja, pedregosa, dura, seca e cristalina da realidade poética com as coisas, o poeta está sempre  falando de si também, projetando-se e realizando-se na poesia… João Cabral não precisa, para dar vazão à sua subjetividade poética, fazer uso de sentimentalismo explícito, da função emotiva ou mesmo da exposição de ideias e reflexões abstratas do que expõe. A abstração, a reflexividade, a descoberta, criação e revelação de si consistem na criação de um mundo poético próprio – o máximo a que pode aspirar qualquer artista.

Não gosto dos comentários políticos de Arnaldo Jabor, mas não posso deixar de reproduzir parte substancial deste brilhante artigo no qual ele argumenta que João Cabral, recém falecido, “não brincava de beleza, mas de epistemologia”, tendo criado, por meio de sua poesia, “uma teoria da percepção”:

João Cabral mostrou o que a poesia poderia ser

(…)

Uma das frases mais profundas que conheço sobre a serventia do artista é de Cezanne: ‘Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim’. Essa ligação com a natureza perdida, esse ‘link’ com o passado animal, esse apagamento entre sujeito e objeto, unindo os dois num só bloco, essa humílima renúncia ao sonho individual de uma iluminação inspirada, essa recusa a ser ‘sujeito autônomo’, esse desejo de ser coisa-do-mundo, geológico, essa recusa humilde a uma luz na alma, a ter um ‘centro’, um foco, um ego, tudo isso me lembra João Cabral que poderia dizer também que ele foi ‘a consciência da linguagem se falando nele’. (more…)