Archive for the ‘Filosofia’ Category

Poesia matemática

2 de maio de 2011

Insisto: poesia e matemática são duas formas de acessar e conhecer o mundo muito distintas; mas, ainda assim, em certo sentido (apenas poético, ou não?), matemática é poesia – e poesia, matemática.

Poesia Matemática

Millôr Fernandes


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


Texto extraído do livro “
Tempo e Contratempo“, Edições O Cruzeiro – Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

Tudo sobre Millôr Fernandes e sua obra em “Biografias“.

Fonte: Releituras.

Aos 23 anos: profissão ou vocação? Provocação nietzschiana

4 de abril de 2011

“E em toda parte vigora uma pressa indecente, como se algo fosse perdido se o jovem de 23 anos ainda não estivesse ‘pronto’, ainda não tivesse resposta para a ‘pergunta-mor’: qual profissão? – Um tipo superior de homem, permitam-me dizer, não gosta de ‘profissão’, justamente porque sabe que tem ‘vocação’… Ele tem tempo, toma tempo, não pensa em ficar ‘pronto’ – aos trinta anos alguém é, no sentido da cultura elevada, um iniciante, uma criança”.

 

 

PS: pretendo escrever um artigo sobre educação superior, neste semestre – há muito tenho essa intenção, e o Congresso Estatuinte da UnB e reformulação do projeto político-pedagógico da universidade, que estão para acontecer, me provocam a fazê-lo já (e acho que vou poder escrever esse artigo como trabalho final de uma disciplina do Mestrado). As ideias e intuições de Nietzsche ocupam papel fundamental nessa reflexão, ainda quando discordo frontalmente delas – no mínimo, elas me provocam, levam-me a pensar…

Dworkin: quem leva a Fox News a sério?

22 de junho de 2010

“(…) So we must consider another important moral virtue: not accuracy but responsibility. Though we cannot demand agreement from our fellow citizens, we can demand responsibility and we must therefore develop a theory of responsibility in sufficient detail so that we can say to some people, “I disagree with you, but I recognize the integrity of your argument. I recognize your responsibility.” Or, “I agree with you, but you’ve thrown a coin or you’ve listened only to Fox News, and therefore you’ve acted irresponsibly in forming your opinion.” (…)”

A brincadeira – muito séria, no entanto – foi dita por Ronald Dworkin, o mais influente (para não entrar em considerações de mérito) filósofo do direito vivo do mundo, em recente conferência em simpósio na Boston University sobre o seu próximo livro (Justice for Hedgehogs), que será lançado em alguns meses.

Eu diria o mesmo, no Brasil, sobre a revista Veja.

Mas é fato que há comentaristas esportivos nos EUA que conseguem ser ainda mais toscos do que os nossos…

Copa é alvo da extrema direita dos Estados Unidos

16 de junho de 2010 | 8h 23

AE – Agência Estado

A Copa do Mundo é a mais nova vítima da raivosa extrema direita dos Estados Unidos. Vários comentaristas norte-americanos estão atacando a popularização do esporte no país, dizendo que se trata de uma modalidade esportiva “de pobre”, coisa de sul-americano, resultado da crescente influência dos hispânicos no país e ligado às “políticas socialistas” do presidente Barack Obama.

Glenn Beck, o mais famoso comentarista conservador da Fox News, compara o futebol às políticas de Obama. “Não importa quantas celebridades o apoiam, quantos bares abrem mais cedo, quantos comerciais de cerveja eles veiculam, nós não queremos a Copa do Mundo, nós não gostamos da Copa do Mundo, não gostamos do futebol e não queremos ter nada a ver com isso”, esbravejou Beck na TV. Segundo ele, o futebol é como o governo atual: “O restante do mundo gosta das políticas de Obama, mas nós não.”

(…)”

Ronald Dworkin: a religião contra a democracia em Israel

19 de outubro de 2009

Ainda estou para encontrar um texto de Ronald Dworkin que não seja extraordinário. Parece que suas conferências não fogem do padrão: vejam abaixo a memorável palestra “Democracy and Religion: America and Israel“, proferida em 2008:

Dworkin preocupa-se, como de hábito, em ser claro e didático, ao ponto que talvez sejam até um pouco maçantes os primeiros trinta minutos do vídeo, ao menos para quem já está um pouco familiarizado com o seu pensamento. Nessa parte, ele introduz a questão e lança os fundamentos que utilizará para abordá-la. A questão: há Estados religiosos e seculares, e ambos podem ser tolerantes a (des)crenças e práticas religiosas; porém, Estados religiosos tolerantes poderão ser democráticos? O fundamento é sua ideia de que democracia não é apenas a regra da maioria, mas exige também, em síntese, que a comunidade trate cada cidadão com igual respeito e consideração, o que só se pode fazer levando a sério os seus direitos. Isso impõe, dentre outras, a exigência de que o Estado seja secular: não pode ser religioso, mesmo que seja tolerante (em vez de “secular”, podemos também dizer “laico”, palavra tão cara aos franceses).

Dworkin fala brevemente dos Estados Unidos, defendendo o caráter secular dos princípios estruturantes do constitucionalismo, do sistema político americano. Não relatarei aqui seus argumentos. Sobre o assunto, vejam este lúcido, brilhante  e corajoso discurso pronunciado por Barack Obama na condição de candidato a presidente:

Depois de falar brevemente do caso americano, Dworkin entra no problema maior que se propõe a abordar na palestra: Israel. Segundo Dworkin, trata-se de um Estado religioso judeu, e isso é inconciliável com uma democracia constitucional. Destaco alguns aspectos do caráter religioso antipluralista de Israel apontados por Dworkin:

– Israel se reconhece abertamente como Estado judeu, especialmente por meio do seu direito – a começar da própria Constituição. Além de diversos elementos da simbologia oficial do Estado (inclusive a bandeira), haveria grandes fragmentos de leis retirados diretamente dos textos sagrados do judaísmo. As leis que regem casamento e divórcio, por exemplo, estariam entre elas, de modo que em Israel, segundo Dworkin, o casamento só é possível se acontecer por meio de uma cerimônia religiosa judaica.

– Dworkin informa que os 20% dos cidadãos israelenses que são de origem árabe ocupam somente 4% das terras. As causas, segundo ele,  não são apenas econômicas: resultam de políticas nacionais discriminatórias. A distribuição de terras historicamente priorizou notoriamente os judeus. Segundo Dworkin, os investimentos governamentais nas cidades majoritariamente judias são mais de 100 vezes maiores (por habitante) do que nas cidades de habitantes árabe-israelenses. Outro indício talvez ainda mais grave e absurdo é que o governo israelense mantém dois sistemas escolares, um para judeus e outros para palestinos (e os demais árabes). Não  preciso dizer que existe um abismo de qualidade entre eles…

– O critério de aceitação de estrangeiros com base étnica/religiosa (o “direito de retorno” dos judeus) é discriminatório não apenas visto de fora, mas também desde o ponto de vista interior de Israel: oficializa-se a discriminação contra os 20% da população de Israel que não são judeus, pois trata-se de política que assumidamente busca mantê-los como população de segunda classe a ser mantida sob controle numérico – para não “desfigurar” a comunidade… É uma política que diz a alguns (1/5) dos seus cidadãos: não queremos outros como vocês aqui: vocês são um problema, um distúrbio, uma ameaça ao nosso modo de vida e à nossa pátria. Portanto, trata-se de uma política que não atende ao critério da integridade, do igual respeito e consideração por cada cidadão.

A proposta de Dworkin é que Israel, para o seu próprio bem (inclusive em termos geopolíticos, na análise dele), torne-se um Estado secular. Que trate com igualdade todos os cidadãos, e o critério para concessão de cidadania a novos indivíduos seja se ele compartilha dos princípios políticos fundadores da comunidade – e não se pertence a determinada etnia, casta, religião…

Meu objetivo, neste post, era apenas apresentar as severas e bem fundamentadas críticas de Dworkin ao Estado israelense. A manipulação midiática é incrível: os Estados árabes são pintados pela grande imprensa como teocracias, enquanto Israel, como uma democracia liberal. Bem, aí está um grande e insuspeito liberal norte-americano, Dworkin, a dizer que não é nada disso… Além de ajudar a esclarecer o conflito árabe-israelense, acredito que o serviço maior prestado por Dworkin está na qualidade de sua reflexão, que  pode nos ajudar a pensar nossa própria realidade política e jurídica, seus fundamentos e sua relação com a religião. Aí, acredito que o pensamento de Dworkin, embora extremamente útil, poderá encontrar alguns limites… Voltarei a eles outro dia.

PS: o discurso de Barack Obama de 2008 foi corajoso porque era um tabu na política americana mencionar também os ateus, os descrentes, quando se tratava de liberdade religiosa. É preciso ter coragem para afirmar peremptoriamente, como fez Obama, que “não somos uma nação cristã”.

PPS: Dworkin é liberal porque pertence à tradição do liberalismo igualitarista. Seu grande antecessor nesse aspecto é Rawls. Porém, a teoria dworkiniana é original, apresentando conceitos novos de liberdade, igualdade, comunidade política e direito (com destaque para a noção de integridade). Assunto para outro texto…

Curso de Formação Política Brasil & Desenvolvimento – Por uma revolução planejada

9 de outubro de 2009

cartaz-curso-de-formacao

É com imensa satisfação que anunciamos o 1º Curso de Formação Política do Grupo Brasil e Desenvolvimento – Por uma revolução planejada.

O curso começará neste domingo, dia 11 de outubro, ás 15 horas na FA (Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas) – UnB.

Serão 8 encontros, sempre aos domingos, ao longo de 2 meses, nos quais debateremos com toda a sociedade as idéias e princípios que norteiam nossa visão política e nossa proposta de desenvolvimento para o país.

O curso não se dará no formato de aulas expositivas, mas de discussões e debates abertos a TODOS sobre o projeto de transformação profunda que defendemos.

Nosso objetivo é fazer desse debate um chamado à ação, à intervenção na sociedade em prol de uma causa transformadora.

As discussões estarão embasadas na bibliografia disponível na pasta Brasil e Desenvolvimento (do Professor Paulo Silbert), na xérox do Cadir (FA).  A seleção da bibliografia foi feita de acordo com a importância dos textos e seus respectivos autores para o pensamento do grupo.A leitura não é obrigatória e não será considerada como pré-requisito para a discussão. Recomendamos, contudo, que os textos sejam lidos para facilitar o entendimento de alguns pressupostos compartilhados pelo grupo.

Participe conosco e venha discutir uma nova alternativa para o país. Convide os interessados. A participação é aberta a todos.

Os interessados devem, apenas, enviar um email, com o título “Inscrição”, para o endereço brasiledesenvolvimento@gmail.com. A inscrição deve conter nome completo, idade, profissão e contato (telefone e email).

Seja bem-vindo a uma nova alternativa. Seja bem-vindo à revolução planejada. Seja bem-vindo ao Brasil e Desenvolvimento.

Curso de formação política B&D – Por uma revolução planejada

Todos os domingos ás 15 horas na FA-UnB

Bibliografia e programação

Encontro 1 (11/10) –  Gruppi, Luciano. Cadernos de Cárcere de Gramsci. Da Hegemonia

Encontro 2 (18/10) – Unger, Mangabeira. O que a esquerda deve propor. Caps 1,2,3 e 7

Encontro 3 (25/10) – Arendt, Hannah. Crises da República. Cap 2 – Da desobediência Civil

Encontro 4 (01/11) – Rawls, John. Teoria da Justiça. Cap 1

Encontro 5 (08/11) – Habermas, Jurgen. A inclusão do outro. Cap 8

Encontro 6 (15/11) – Sen, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Cap 1

Encontro 7 (22/11) – Polanyi, Karl. A grande transformação. Cap 9

Encontro 8 (29/11) – Furtado, Celso. Cadernos de desenvolvimento

Recomendo: Pablo Capistrano

19 de setembro de 2009

Pablo Capistrano é natalense, meu conterrâneo. Nunca o vi, e é provável que ele ignore minha existência.

É apenas por ter gostado de tudo o que já li dele que faço publicidade gratuita e não-requisitada aqui. Nenhuma outra razão seria suficiente nem necessária, aliás…

Ainda não li seus livros, mas lia sempre seus artigos na imprensa potiguar (notadamente na revista Preá e n’O Jornal de Hoje, no qual publiquei o primeiro artigo da minha vida, em abril de 2003, intitulado “PT (neo)neoliberal?“…). Se alguém quiser me dar um presente, taí uma boa dica: um livro do Pablo Capistrano.

Reproduzo abaixo material de seu site sobre seus livros. Pra conhecer mais do autor e da obra: http://www.pablocapistrano.com.br/

Eu gostaria de conhecer mais escritores talentosos contemporâneos do Brasil (e do mundo). No entanto, os filtros comerciais são cruéis… Acho que a alternativa é trocarmos referências, criarmos uma rede informal. Faço a minha parte divulgando um jovem nome da literatura e da filosofia do RN na atualidade. Ficaria feliz em receber indicações semelhantes de outros lugares.

PEQUENAS CATÁSTROFES
2ª Edição
Guerra, música, misticismo, transgenia, Nietzsche, violência e substâncias psicotrópicas se misturam em uma narrativa rápida e surpreendente, que dão forma a Pequenas catástrofes , de Pablo Capistrano. Romance de estréia do professor de filosofia potiguar, o livro pode ser considerado um bestseller regional. Lançado inicialmente por uma pequena editora de Natal, Pequenas catástrofes teve a tiragem inicial de três mil exemplares esgotada em uma única livraria da capital do Rio Grande do Norte. Depois de conquistar o público, o autor conseguiu ainda a chancela da crítica com o primeiro lugar no concurso Câmara Cascudo, maior prêmio literário do estado. A editora Rocco lança agora o livro pelo Safra XXI , selo com programação visual diferenciada e proposta ousada de lançar jovens e talentosos autores.
1ª Edição
Em 2003 lançou pela coleção Letras Potiguares da AS Editores a primeira edição do livro Pequenas Catástrofes (Romance).

Primeiro livro que o autor não precisou bancar a edição com recursos do próprio bolso, Pequenas Catástrofes ganhou em 2003 o primeiro lugar no concurso Câmara Cascudo , maior prêmio literário do estado do Rio Grande do Norte. Atualmente o livro está sendo reeditado pela Rocco.

» Confira a Entevista sobre o Livro!

DOMINGOS NO MUNDO
Em 1998 o livro de poemas Domingos Do Mundo (esgotado).
Na noite de lançamento, na galeria do NAC na UFRN foram vendidos 70% da edição, o que consiste, em termos proporcionais um recorde para o mercado local. Pablo admite que poderia ter ganhado muito dinheiro nessa noite se a tiragem do livro não fosse de apenas 150 cópias.

O livro traz uma coletânea da produção poética do autor nos anos noventa, contendo poemas escritos à época do lançamento e ainda no período de efervescência do Sótão 277 .

DESCOORDENADAS CARTESIANAS
Publicou em 2001 o livro Descoordenadas Cartesianas em Três Ensaios de Quase Filosofia (Sebo Vermelho Edições/ Coleção João Nicodemos de Lima).

Trata-se de uma coletânea de Ensaios produzidos durante o período em que cursou a graduação de Filosofia na UFRN. Aborda temas literários e filosóficos em três textos:

Desconstruindo o Filósofo : Um ensaio sobre o livro O Catatau do poeta Curitibano Paulo Leminski e suas relações com o personagem conceitual de René Descartes no livro Discurso do Método. Para ser lido ao som de Jazz Be Bop.

Maiakóviski: Poesia e Política : Uma refutação do argumento de Walter Benjamin acerca da vinculação entre literatura e política com base na analise da poética de Maiakoviski e nas idéias de Ludwig Wittgenstein acerca dos usos do termo “técnica” em obras artísticas. Para ser lido ao som de Prokofiev.

Mística e Lógica: onde a linguagem pára : Um estudo acerca das relações entre a mística e a lógica no Tractatus Lógico-Philosophicus de Ludiwg Wittgenstein a luz da tradição da Cabala lurianica. Para ser lido ouvindo-se o silêncio. (more…)

No que crêem os que não crêem?

25 de agosto de 2009

Escrevi o texto abaixo em 2006, como trabalho para a disciplina “Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica”, ministrada pelo professor Alexandre Araújo Costa (ele nos pediu para fazer uma afirmação qualquer sobre o direito e em seguida justificar se, e como, seria possível afirmar que ela era verdadeira). Mudei o título (fazendo uma referência ao livro que registra diálogos entre Umberto Eco e Carlo Maria Martini), cortei um pequeno trecho e publiquei-o num blog em 2007, quando constatei com algum espanto que, embora o texto já tivesse mais de um ano, eu não mudara de opinião desde então sobre o assunto tratado nele. Três anos depois, mantenho a mesma visão, a mesma atitude proposta pelo texto, embora talvez hoje seja capaz de elaborá-la um pouco melhor (em breve espero publicar um texto a respeito aqui).

A figura abaixo é uma litografia de Escher. São fascinantes todas as suas obras que trabalham o tema paradoxo, mas gosto especialmente desta (e ela tem tudo a ver com o texto abaixo) porque mostra o paradoxo da autoconstituição. Eu constituo a mim mesmo – ou, melhor dizendo, nós constituímos a nós mesmos. A imagem sintetiza o que penso sobre a verdade, desde um ponto de vista hermenêutico-existencial, de autofundação; e também, aliás, sobre Constituição, processo constituinte e povo.

Quem é o povo que fala nas Constituições? Quem é o “We, the people”  que dá início à Constituição  norte-americana? Em interessantíssimo debate na Faculdade de Direito da UnB no semestre passado , o professor Cristiano Paixão citava um texto de Derrida no qual ele dizia que o povo americano passou a existir justamente pelo próprio ato de dar-se a sua Constituição: o povo passa a existir como ente político a partir do momento em que se assume como sujeito político, num processo simultâneo  e recíproco (Constituição-povo) de autocriação; é o ato de constituir-se que o constitui (preciso ler ainda esse texto de Derrida, então ignorem terminologias imprecisas de minha parte).  Povo, Constituição, liberdade política, fundação, natalidade… Este é assunto para outro post, em que pretendo explorar algumas ideias de Hannah Arendt, Rosenfeld, Habermas e Derrida. Agora, deixemos de lado a digressão constitucional (que não foi gratuita, mas devida à minha intenção de demonstrar a conexão hermenêutico-existencial entre os dois temas) e voltemos à verdade:

escher-drawinghands

No que crêem os que não crêem?

“Brincadeira de criança, as opiniões humanas.”

Heráclito [1]

Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela [2] , tem razão quando diz que “a verdade é sempre um contato interior e inexplicável”: não sei explicar porque creio naquilo em que creio, o fato é que creio – “Pensar é um ato. Sentir é um fato”.

Por que creio em algo? A melhor resposta talvez fosse: creio porque creio. Esse juízo decorre de uma valoração subjetiva, uma intuição instintiva, assim como qualquer outro que pudesse fazer. Isso não significa que não forme minhas opiniões influenciado também – e predominantemente – por argumentos racionais; mas crer na razão é também subjetivo e intuitivo, de modo que apenas às vezes escolhemos ser (ou acontece de sermos) convencidos por ela.

Mas o “porque sim” ou o “creio porque creio” não costuma convencer as outras pessoas – vontade que nós costumamos ter. Para persuadir alguns, temos que dar ao nosso discurso uma aparência racional; outros poderão concordar conosco se apresentarmos argumentos de autoridade; outros poderão ser convencidos por uma poesia ou uma imagem.

É difícil evitar os exageros de posições extremistas: por um lado, a tentação de transformar a nossa visão sobre determinado assunto “na verdade” sobre ele; por outro, a de se negar que nossas opiniões tenham qualquer validade ou utilidade. O primeiro ponto de vista ignora que o conhecimento humano é uma criação humana e, como tal, incompleto, histórico, valorativo, subjetivo, cultural… O segundo compreende o que o primeiro ignora, mas, depois de negar o conhecimento absoluto, acaba por negar também o relativo, não o afirmando como conhecimento.

Sendo o conhecimento humano, demasiado humano, ele não é absoluto, mas isso não o invalida; é esse conhecimento que criamos e utilizamos – “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”, disse Terêncio [3] . Desprezar nossas verdades relativas e falhas pelo fato de elas não serem divinas (absolutas) é para quem quer ser Deus. Eu sou humano. Se não há verdade absoluta, se “a verdade é dividida em metades diferentes uma da outra”, como disse Drummond, isso não nos impede de optar pela nossa; cada um “conforme seu capricho, seu ilusão, sua miopia”.

Brinquemos, então, de criar e escolher verdades – mas a sério, com a seriedade com que brinca uma criança. Nunca nos esqueçamos de que nossas verdades são produto de uma brincadeira de criança. E nunca nos esqueçamos de que tal brincadeira é o que fazemos de mais sério em nossas vidas.

Eu, de acordo com o meu astigmatismo, vou escolhendo as metades que me agradam.

P.S.:

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

[A porta da verdade? Lembremos do próprio Drummond:

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta” …

“E agora, José?”

“E agora, você?”]


[1] Citado por Michel Maffesoli em A parte do diabo (São Paulo: Record, 2004, p. 12).

[2] Romance de Clarice Lispector.

[3] Citado por Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte.