Archive for the ‘Arte’ Category

Gripe suína, Direito Internacional e exceção

24 de setembro de 2009

Reproduzo texto de Laila Galvão publicado no blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento. A análise fundamenta-se bastante em palestra de Deisy Ventura, profa. do Instituto de Relações Internacionais da USP, pensadora destacada do Direito Internacional (e também da educação jurídica) no Brasil. Vale à pena ouvir sempre a profa. Deisy: acompanhem o blog mantido por ela e outros professores para “construção coletiva do Painel Direito e Arte – Música e Caricatura, que ocorrerá em abril de 2010, em Florianópolis (SC), durante o Encontro da Associação Brasileira do Ensino do Direito”.

Breves comentários sobre a gripe suína

Setembro 22, 2009

Por Laila Maia Galvão

Recentemente, estava em uma sala em que se encontravam outras quatro pessoas e, de repente, soltei um espirro. Eu não estava doente, com dor de garganta, com febre, tampouco com aparência de doente… apenas espirrei uma única vez. A mulher ao meu lado disse algo do gênero: é gripe suína, sai daqui. Achei que ela estava brincando e, sendo assim, abri um sorriso. Ela, ao contrário do que pensava, estava falando sério e passou a me evitar durante todo o dia. Ela realmente desejava a minha retirada da sala.

Toda essa questão da gripe suína e de todo “auê” que a mídia e as pessoas no geral fizeram a respeito do tema me incomodaram bastante desde o início. No entanto, eu não estava sendo capaz de articular essas minhas impressões e angústias a respeito do fenômeno H1N1 a fim de estabelecer uma interpretação coerente de todos os acontecimentos.

Na semana passada tive a felicidade de assistir uma palestra da professora Deisy Ventura, da Universidade de São Paulo. O tema de sua apresentação foi “pandemias e estado de exceção”, cabendo ressaltar que a gripe suína não era o foco principal da discussão, mas que, de qualquer forma, permeava o debate por ser o caso mais presente que temos de uma pandemia. A palestra da professora, no meu entender, revelou uma abordagem muitíssimo interessante do assunto e eu consegui ao menos enxergar essa questão a partir desse outro olhar, muito além de uma visão-Globo-do-mundo (e consegui também arrefecer algumas de minhas angústias!).

A pandemia pode ser entendida com um fenômeno patológico, que alcança simultaneamente um grande número de pessoas, numa zona geográfica muito vasta. Assim sendo, a professora buscou compreender as repercussões jurídicas de uma pandemia e questionou, inclusive, se a pandemia seria uma forma de terror contemporâneo.

Tendo em vista que a professora é doutora em Direito Internacional, ela ressaltou que nossa tendência é ainda nos limitar ao pensamento dentro do Estado Nacional, em âmbito interno. No entanto, questões como saúde e meio ambiente, por exemplo, não enfrentariam fronteiras e, por tal motivo, deveriam ser abordadas no âmbito externo, a partir de um diálogo de toda a comunidade internacional.

Ademais, nosso modo de viver e a globalização potencializam a dimensão de fenômenos de pandemia (cabendo ressaltar que as pestes sempre existiram na história da humanidade, com maior ou menor impacto). A constante circulação de pessoas, nosso modo de produção de alimentos e a cultura de consumo de produtos farmacêuticos seriam expressões desse nosso “modo de viver”.

É dessa forma que, mais do que nunca, precisamos de uma vigilância epidemiológica que funcione adequadamente. No entanto, nossa legislação nesse aspecto é bastante ultrapassada. É preciso regulamentar essa questão.

Nesses momentos de pavor, são tomadas atitudes bruscas em nome da defesa do interesse público que trazem consequências nefastas à nossa sociedade. Dessa forma, em nome desse tal “interesse público” uma série de restrições a direitos humanos, tais como quarentena compulsória e restrição de circulação de pessoas, são estabelecidas. Trata-se de um grande perigo, uma vez que, desse modo, nos aproximamos de um estado de exceção.

A professora tratou também do problema que é definir o termo “terrorismo” (more…)

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Estética, Política e Revolução: Jacques Rancière

21 de setembro de 2009

Transcrevo abaixo trecho de uma das melhores entrevistas que li em muito tempo. Com Jacques Rancière, para a Revista Cult, edição 139, de agosto. Agradeço a Conceição Medeiros, minha tia, pela indicação.

O mote da conversa é o livro “Le spectateur émancipé” (“O espectador emancipado”), recém-lançado aqui na França e ainda inédito no Brasil. Recomendo a leitura da íntegra da entrevista a quem se interessar por estética, política, arte, terrorismo, internet, revolução, movimentos sociais, segurança, vigilantismo…  Aqui, publico as partes que dizem mais respeito a um dos meus temas preferidos: a revolução. E vou correndo procurar o livro de Rancière, que pretendo ler e resenhar.

“(…) CULT – O senhor rejeita a ideia de estetização da política que encontramos em Walter Benjamin. Como podemos interpretar a manipulação das sensações dentro do campo político? Por exemplo, o incentivo ao medo do terrorismo, a apresentação de políticos como mercadorias não seriam maneiras de estetizar a relação das pessoas com o poder político?

(…) A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos. Para mim, é um dado permanente. É diferente da ideia benjaminiana de que o exercício do poder teria se estetizado num momento específico. Benjamin é sensível às formas e manifestações do Terceiro Reich, mas é preciso dizer que o poder sempre funcionou com manifestações espetaculares, seja na Grécia clássica, seja nas monarquias modernas.
Há um momento em que é preciso distinguir duas coisas: de um lado, a adoção de certas formas espetaculares de mise-en-scène do poder e da comunidade. De outro, a idéia mesma de comunidade.

É preciso saber se pensamos a comunidade política simplesmente como um grupo de indivíduos governados por um poder ou se a pensamos como um organismo animado. Na imaginação das comunidades há sempre esse jogo, essa oscilação entre a representação jurídica e uma representação estética. Mas não creio que se possa definir um momento preciso de estetização da comunidade. Por exemplo, o nazismo, que é usado frequentemente como exemplo de política estetizada, na verdade também recuperou a estética de seu tempo. Pense nas demostrações dos grupos de ginástica em Praga nos anos 1930. Eram associações apolíticas ou absolutamente democráticas, com a mesma estética que encontramos no nazismo. Para mim, é preciso tomar distância da ideia de um momento totalitário da história marcado especialmente pela estetização política, como se pudéssemos inscrever isso num momento de anti-história das formas estéticas da política e das formas de espetacularização do poder. (…)

CULT – Se a mudança do mundo passa por reconfigurações da maneira de pensar e entender a realidade, então ela não passa pelas revoluções como as conhecemos?

Rancière – Podemos pensar nisso baseados nas revoluções que já aconteceram. Em primeiro lugar, uma revolução é uma ruptura na ordem do que é visível, pensável, realizável, o universo do possível. Os movimentos de revolução sempre tiveram a forma de bolas de neve.             A partir do momento em que um poder legítimo se encontra deslegitimizado, parece que não está em condições de reinar pela força, porque caíram todas as estruturas que legitimam a força. Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas. As instituições perdem a legitimidade, aparecem novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação, novas formas da economia, e assim por diante. É uma ruptura do universo sensível que cria uma miríade de possibilidades.            Não penso as revoluções, nenhuma delas, como etapas de um processo histórico, ascensão de uma classe, triunfo de um partido, e assim por diante. Não há teoria da revolução que diga como ela nasce e como conduzi-la, porque, cada vez que ela começa o que existia antes já não é válido.
Existe uma carta interessante de Marx, um pouco após 1848, quando os socialistas pensavam que as estruturas seriam abaladas mais uma vez. Ele diz que as revoluções não funcionam como os fenômenos científicos normais, são mais como os fenômenos imprevisíveis, os terremotos. Não sabemos como elas vão se comportar. Todas as teorias científicas, estratégicas, das revoluções demonstram isso.

CULT – Não podemos antecipá-las…

Rancière – Podemos prepará-las, mas não antecipá-las. A temporalidade autônoma de uma revolução, os espaços que elas criam não correspondem jamais ao quadro conceitual que temos no início.

CULT – A estratégia da esquerda tradicional é o confronto aberto, o que se opõe à sua teoria de reconfiguração estética da vida política…

Rancière – Temos de pensar na estética em sentido largo, como modos de percepção e sensibilidade, a maneira pela qual os indivíduos e grupos constroem o mundo. É um processo estético que cria o novo, ou seja, desloca os dados do problema.

Os universos de percepção não compreendem mais os mesmos objetos, nem os mesmos sujeitos, não funcionam mais nas mesmas regras, então instauram possibilidades inéditas. Não é simplesmente que as revoluções caiam do céu, mas os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda.        Não sou contra processos cumulativos, claro: se imigrantes ilegais têm capacidade de fazer greves e manifestações em condições perigosas para eles mesmos, isso define um alargamento não só do poder e das capacidades que temos, mas também do mundo no qual inscrevemos nossas ações e nosso pensamento.        A transformação dos mundos vividos é completamente diferente da elaboração de estratégias para a tomada do poder. Se há um movimento de emancipação, há uma transformação do universo dos possíveis, da percepção e da ação, então podemos imaginar como consequência também um movimento de tipo revolucionário, de tomada do poder. É claro que estamos falando do passado, porque o presente não é muito alegre.

CULT – Por que “o presente não é muito alegre”?

Rancière – O presente não é alegre porque não há esperanças fortes, digamos assim, que sustentem os movimentos existentes.           Por exemplo, a recente greve das universidades, que criou algumas formas de manifestação, digamos, particulares: cursos na rua, no metrô, invenções para deslocar para o campo da sociedade como um todo o problema que atinge o ensino superior francês.
Mas todas essas inovações foram completamente isoladas do ponto de vista da informação. O ano de 1968 existiu em parte porque o rádio cobria profundamente o movimento estudantil, sabia-se tudo que acontecia, havia uma geração de jovens repórteres de rádio que fez circular as informações. (more…)

Recomendo: Pablo Capistrano

19 de setembro de 2009

Pablo Capistrano é natalense, meu conterrâneo. Nunca o vi, e é provável que ele ignore minha existência.

É apenas por ter gostado de tudo o que já li dele que faço publicidade gratuita e não-requisitada aqui. Nenhuma outra razão seria suficiente nem necessária, aliás…

Ainda não li seus livros, mas lia sempre seus artigos na imprensa potiguar (notadamente na revista Preá e n’O Jornal de Hoje, no qual publiquei o primeiro artigo da minha vida, em abril de 2003, intitulado “PT (neo)neoliberal?“…). Se alguém quiser me dar um presente, taí uma boa dica: um livro do Pablo Capistrano.

Reproduzo abaixo material de seu site sobre seus livros. Pra conhecer mais do autor e da obra: http://www.pablocapistrano.com.br/

Eu gostaria de conhecer mais escritores talentosos contemporâneos do Brasil (e do mundo). No entanto, os filtros comerciais são cruéis… Acho que a alternativa é trocarmos referências, criarmos uma rede informal. Faço a minha parte divulgando um jovem nome da literatura e da filosofia do RN na atualidade. Ficaria feliz em receber indicações semelhantes de outros lugares.

PEQUENAS CATÁSTROFES
2ª Edição
Guerra, música, misticismo, transgenia, Nietzsche, violência e substâncias psicotrópicas se misturam em uma narrativa rápida e surpreendente, que dão forma a Pequenas catástrofes , de Pablo Capistrano. Romance de estréia do professor de filosofia potiguar, o livro pode ser considerado um bestseller regional. Lançado inicialmente por uma pequena editora de Natal, Pequenas catástrofes teve a tiragem inicial de três mil exemplares esgotada em uma única livraria da capital do Rio Grande do Norte. Depois de conquistar o público, o autor conseguiu ainda a chancela da crítica com o primeiro lugar no concurso Câmara Cascudo, maior prêmio literário do estado. A editora Rocco lança agora o livro pelo Safra XXI , selo com programação visual diferenciada e proposta ousada de lançar jovens e talentosos autores.
1ª Edição
Em 2003 lançou pela coleção Letras Potiguares da AS Editores a primeira edição do livro Pequenas Catástrofes (Romance).

Primeiro livro que o autor não precisou bancar a edição com recursos do próprio bolso, Pequenas Catástrofes ganhou em 2003 o primeiro lugar no concurso Câmara Cascudo , maior prêmio literário do estado do Rio Grande do Norte. Atualmente o livro está sendo reeditado pela Rocco.

» Confira a Entevista sobre o Livro!

DOMINGOS NO MUNDO
Em 1998 o livro de poemas Domingos Do Mundo (esgotado).
Na noite de lançamento, na galeria do NAC na UFRN foram vendidos 70% da edição, o que consiste, em termos proporcionais um recorde para o mercado local. Pablo admite que poderia ter ganhado muito dinheiro nessa noite se a tiragem do livro não fosse de apenas 150 cópias.

O livro traz uma coletânea da produção poética do autor nos anos noventa, contendo poemas escritos à época do lançamento e ainda no período de efervescência do Sótão 277 .

DESCOORDENADAS CARTESIANAS
Publicou em 2001 o livro Descoordenadas Cartesianas em Três Ensaios de Quase Filosofia (Sebo Vermelho Edições/ Coleção João Nicodemos de Lima).

Trata-se de uma coletânea de Ensaios produzidos durante o período em que cursou a graduação de Filosofia na UFRN. Aborda temas literários e filosóficos em três textos:

Desconstruindo o Filósofo : Um ensaio sobre o livro O Catatau do poeta Curitibano Paulo Leminski e suas relações com o personagem conceitual de René Descartes no livro Discurso do Método. Para ser lido ao som de Jazz Be Bop.

Maiakóviski: Poesia e Política : Uma refutação do argumento de Walter Benjamin acerca da vinculação entre literatura e política com base na analise da poética de Maiakoviski e nas idéias de Ludwig Wittgenstein acerca dos usos do termo “técnica” em obras artísticas. Para ser lido ao som de Prokofiev.

Mística e Lógica: onde a linguagem pára : Um estudo acerca das relações entre a mística e a lógica no Tractatus Lógico-Philosophicus de Ludiwg Wittgenstein a luz da tradição da Cabala lurianica. Para ser lido ouvindo-se o silêncio. (more…)

11 de setembro – À memória de Victor Jara

12 de setembro de 2009

Acabo de publicar no blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento:

11 de setembro – À memória de Victor Jara

Vientos de pueblo, por Victor Jara:

“(…) Pinochet deu o golpe truculento em 11 de setembro de 1973. Nesse dia o estádio de futebol de Santiago foi usado como campo de concentração para a prisão de milhares de chilenos. Entre eles estava um jovem compositor de música popular, líder do movimento chamado Nueva-Canción.

Esse é o mesmo movimento que em Cuba recebeu o nome de Nueva-Trova e que no Brasil foi chamado Música de Protesto. Na América Latina, participando daquele movimento estético e político, se destacavam jovens músicos na faixa dos 20 anos de idade: Silvio Rodriguez, Pablo Milanez, Chico Buarque, Carlos Varella, Benjamin Acevedo e aquele jovem prisioneiro de Pinochet: Victor Jara.

No estádio de futebol, Victor estava com seu violão. Para confortar os compatriotas prisioneiros no campo-de-futebol-concentração, ele começou a tocar seu instrumento. Os militares mandaram ele parar de tocar. Ele não parava. Agarraram-no e o arrastaram para um canto. Executaram cruelmente o único recurso que não mais lhe permitiria tocar violão: com um facão cortaram as duas mãos de Victor. Seus gritos ecoaram no estádio. Mas, teimosa e bravamente, Victor misturava seus gritos a cantos melancólicos com alguns versos fortes e de protesto de suas canções. Aqueles trechos musicais lancinantes de conhecidas melodias da Nueva-Canción, que haviam embalado a campanha presidencial de Salvador Allende, precisavam ser calados pelos milicos. Um tiro na cabeça do Victor Jara sem mãos, sangue aos borbotões saindo de pulsos dilacerados, acabou com uma das maiores promessas da música latinoamericana.
Pela memória do músico Victor Jara, assassinado em 11 de setembro de 1973.

Acima, fragmento de texto do maestro Jorge Antunes, compositor e professor da UnB.

(Segundo a Wikipédia, Victor Jara de fato foi preso no dia 11 de setembro de 1973, data do golpe contra Salvador Allende; seu bárbaro assassinato pelos comandados de Pinochet, no entanto, teria ocorrido no dia 16.)

A cada 11 de setembro, lembremo-nos do golpe que, com apoio dos Estados Unidos, derrubou o governo de esquerda de Allende, democraticamente eleito para governar o Chile, e instaurou em seu lugar um regime autoritário genocida. Lembremo-nos dos porões de tortura das ditaduras brasileira, argentina, chilena, paraguaia…

Não nos esqueçamos de que a ditadura brasileira não foi apenas uma quartelada militar: era um regime civil-militar, sustentado pelas grandes potências capitalistas (época do auge de Guerra Fria) e pelo grande empresariado nacional, com o apoio e cumplicidade de diversos segmentos sociais.

Lembremo-nos, sobretudo, dos bravos e das bravas lutadores e lutadoras, operários e operárias, camponeses e camponesas, artistas, professores, jornalistas, estudantes, políticos que resistiram à opressão então imposta pelas classes dominantes da América Latina.

Lembremo-nos de Victor Jara, Honestino Guimarães, Vladimir Herzog, Alexandre Vannucchi Leme e de tantos outros assassinados anônimos nos porões de tortura, como Olavo Hansen (já perceberam que costumamos nos lembrar dos estudantes, políticos, artistas, intelectuais e profissionais liberais perseguidos, mas não dos operários?).

Merece louvor a atuação da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça, criada no governo Fernando Henrique Cardoso (na gestão do Ministro José Gregori), e cuja atuação ganhou uma dimensão mais pedagógica durante o governo Lula, com iniciativas brilhantes como a Caravana da Anistia e a Revista Anistia Política. (more…)

Juízes: às cadeias!

2 de setembro de 2009

Seja qual for o fim atribuído à pena, a prisão é contra-producente. Nem intimida, nem regenera. Embrutece e perverte. Insensibiliza ou revolta. Descaracteriza e desambienta. Priva de funções. Inverte a natureza. Gera cínicos ou hipócritas“.

A prisão impõe convivências repugnantes e indesejáveis em total intimidade, às vezes, no mesmo cubículo, e priva da natureza, do espaço, do tempo reduzido a um cálculo, a uma conta para um homem degradado a um número e a um uniforme. Às vezes, de xadrez como requinte.

A execução é, em regra, um sistema de atentados à dignidade humana, de ofensas à natureza humana, ao ser, à consciência.

Ninguém discute que constitui violação dos direitos do homem aplicar pena não cominada por lei anterior, mas o carcereiro cria, não só aplica, como executa, de plano, no corpo e na alma, penas jamais imaginadas pelo legislador e agrava extremamente, na execução, as penas cominadas e aplicadas. O juiz não pode aplicar sequer pena pecuniária ou acessória não cominada previamente por lei e sujeita a processo contraditório. No entanto, o carcereiro inuma o preso em solitárias ou ‘celas surdas’, exila-o, condena-o à fome e à sede, priva-o de sol, de ar, de movimento, de visita, de correspondência, desapropria, direta ou indiretamente, ‘pertences’ arrecadados, o salário e o pecúlio, bane-o para ilhas, concentra, num instante de castigo, a perpetuidade da dor e da vergonha.

Além de tudo, a prisão é fábrica de criminosos passionais e sexuais. O que constitui advertência focal, quanto ao sexo, é o clamor de mais uma prova contra a subsistência das causas e, sobretudo, a fatalidade de efeitos, como estes e tantíssimos outros. Gritamos contra a castração e a esterilização dos criminosos. Não será pior proibir a função, subvertendo as leis da natureza e impondo vícios que atentam contra a saúde física e mental, a família, a moralidade, a honra?

Não há solução para os problemas da dignidade, da regularidade, da normalidade da vida sexual com a prisão. Como resolver problemas inerentes à prisão com a prisão?

As frases acima são fragmentos do texto
Penitência de um Penitenciarista“, de Roberto Lyra (pai), com base em sua experiência de décadas como inspetor penitenciário.

Lembram-se daquele caso em que mandaram encarcerar uma menina no Pará numa cela junto com 30 homens?

O que gera esse tipo de absurdo?


Uma das características do sistema penal (identificadas por Eugênio Raúl Zaffaroni, dentre outros) é a burocratização, que ocorre, dentre outras maneiras, pelo isolamento lingüístico e emocional dos juízes em relação aos setores criminalizados, que evita a compreensão da dor e dos condicionantes da ação do réu julgado.
O premiado documentário Justiça, de Maria Augusta Ramos, mostra bem esse processo. Logo na primeira cena, vemos um juiz que não percebe interrogar um homem que está numa cadeira de rodas, e só passa a ter ciência dessa condição porque o próprio interrogado o informa. Fica claro o enorme desinteresse do juiz na realidade da pessoa criminalizada. Em seguida, isso se confirma, quando se percebe a indiferença do juiz diante do pedido que lhe faz o réu, para ser transferido a outro lugar mais adequado à sua condição, já que no local em que estava preso sequer podia evacuar apropriadamente. O juiz responde que nada poderia fazer sem um laudo médico sobre a sua situação. Trata-se de uma resposta técnica tipicamente burocrática, de aplicação insensível da norma, e devida em grande parte à falta de contato pessoal com a realidade do sistema prisional. É diferente ouvir falar de presenciar in loco… O impacto emocional, desburocratizador, de conhecer a situação real do preso é importante para desburocratizar o Judiciário. Como é possível fazer a “dosimetria da pena” sem ter noção do que de fato significará essa pena? Os juízes precisam olhar, ver, ouvir, cheirar, sentir… Precisam deixar-se afetar violentamente pela crueza da realidade.

O problema da prisão não está só em casos mais extremados (more…)

No que crêem os que não crêem?

25 de agosto de 2009

Escrevi o texto abaixo em 2006, como trabalho para a disciplina “Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica”, ministrada pelo professor Alexandre Araújo Costa (ele nos pediu para fazer uma afirmação qualquer sobre o direito e em seguida justificar se, e como, seria possível afirmar que ela era verdadeira). Mudei o título (fazendo uma referência ao livro que registra diálogos entre Umberto Eco e Carlo Maria Martini), cortei um pequeno trecho e publiquei-o num blog em 2007, quando constatei com algum espanto que, embora o texto já tivesse mais de um ano, eu não mudara de opinião desde então sobre o assunto tratado nele. Três anos depois, mantenho a mesma visão, a mesma atitude proposta pelo texto, embora talvez hoje seja capaz de elaborá-la um pouco melhor (em breve espero publicar um texto a respeito aqui).

A figura abaixo é uma litografia de Escher. São fascinantes todas as suas obras que trabalham o tema paradoxo, mas gosto especialmente desta (e ela tem tudo a ver com o texto abaixo) porque mostra o paradoxo da autoconstituição. Eu constituo a mim mesmo – ou, melhor dizendo, nós constituímos a nós mesmos. A imagem sintetiza o que penso sobre a verdade, desde um ponto de vista hermenêutico-existencial, de autofundação; e também, aliás, sobre Constituição, processo constituinte e povo.

Quem é o povo que fala nas Constituições? Quem é o “We, the people”  que dá início à Constituição  norte-americana? Em interessantíssimo debate na Faculdade de Direito da UnB no semestre passado , o professor Cristiano Paixão citava um texto de Derrida no qual ele dizia que o povo americano passou a existir justamente pelo próprio ato de dar-se a sua Constituição: o povo passa a existir como ente político a partir do momento em que se assume como sujeito político, num processo simultâneo  e recíproco (Constituição-povo) de autocriação; é o ato de constituir-se que o constitui (preciso ler ainda esse texto de Derrida, então ignorem terminologias imprecisas de minha parte).  Povo, Constituição, liberdade política, fundação, natalidade… Este é assunto para outro post, em que pretendo explorar algumas ideias de Hannah Arendt, Rosenfeld, Habermas e Derrida. Agora, deixemos de lado a digressão constitucional (que não foi gratuita, mas devida à minha intenção de demonstrar a conexão hermenêutico-existencial entre os dois temas) e voltemos à verdade:

escher-drawinghands

No que crêem os que não crêem?

“Brincadeira de criança, as opiniões humanas.”

Heráclito [1]

Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela [2] , tem razão quando diz que “a verdade é sempre um contato interior e inexplicável”: não sei explicar porque creio naquilo em que creio, o fato é que creio – “Pensar é um ato. Sentir é um fato”.

Por que creio em algo? A melhor resposta talvez fosse: creio porque creio. Esse juízo decorre de uma valoração subjetiva, uma intuição instintiva, assim como qualquer outro que pudesse fazer. Isso não significa que não forme minhas opiniões influenciado também – e predominantemente – por argumentos racionais; mas crer na razão é também subjetivo e intuitivo, de modo que apenas às vezes escolhemos ser (ou acontece de sermos) convencidos por ela.

Mas o “porque sim” ou o “creio porque creio” não costuma convencer as outras pessoas – vontade que nós costumamos ter. Para persuadir alguns, temos que dar ao nosso discurso uma aparência racional; outros poderão concordar conosco se apresentarmos argumentos de autoridade; outros poderão ser convencidos por uma poesia ou uma imagem.

É difícil evitar os exageros de posições extremistas: por um lado, a tentação de transformar a nossa visão sobre determinado assunto “na verdade” sobre ele; por outro, a de se negar que nossas opiniões tenham qualquer validade ou utilidade. O primeiro ponto de vista ignora que o conhecimento humano é uma criação humana e, como tal, incompleto, histórico, valorativo, subjetivo, cultural… O segundo compreende o que o primeiro ignora, mas, depois de negar o conhecimento absoluto, acaba por negar também o relativo, não o afirmando como conhecimento.

Sendo o conhecimento humano, demasiado humano, ele não é absoluto, mas isso não o invalida; é esse conhecimento que criamos e utilizamos – “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”, disse Terêncio [3] . Desprezar nossas verdades relativas e falhas pelo fato de elas não serem divinas (absolutas) é para quem quer ser Deus. Eu sou humano. Se não há verdade absoluta, se “a verdade é dividida em metades diferentes uma da outra”, como disse Drummond, isso não nos impede de optar pela nossa; cada um “conforme seu capricho, seu ilusão, sua miopia”.

Brinquemos, então, de criar e escolher verdades – mas a sério, com a seriedade com que brinca uma criança. Nunca nos esqueçamos de que nossas verdades são produto de uma brincadeira de criança. E nunca nos esqueçamos de que tal brincadeira é o que fazemos de mais sério em nossas vidas.

Eu, de acordo com o meu astigmatismo, vou escolhendo as metades que me agradam.

P.S.:

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

[A porta da verdade? Lembremos do próprio Drummond:

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta” …

“E agora, José?”

“E agora, você?”]


[1] Citado por Michel Maffesoli em A parte do diabo (São Paulo: Record, 2004, p. 12).

[2] Romance de Clarice Lispector.

[3] Citado por Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte.

Liberdade surrealista: Éluard-Dalí

24 de agosto de 2009

Conheci este famoso poema na aula de francês, há umas duas semanas. Éluard o escreveu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando participava da resistência à invasão nazista na França. Isso torna o poema ainda mais especial, embora ele tenha transcendido a ocasião que impulsionou seu nascimento, comunicando uma mensagem universal de libertação.

Encontrei na internet uma tradução para o português à sua altura, feita por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade ainda nos anos 40. Aí vão as duas versões. A imagem é o Retrato de Paul Éluard, pintura de Salvador Dalí, de 1929, ano em que o poeta francês e o jovem gênio catalão conheceram-se, para o bem do surrealismo que ambos inauguravam. A comunhão estética entre eles era tanta, que Dalí acabou apaixonando-se e casando-se, logo em seguida, com Gala, a russa com quem Éluard era casado… O poeta continuou amigo de Dalí e de sua ex-esposa, claro; deve ter encarado tudo com muita naturalidade, num mundo afinal surrealista. Gala Éluard Dalí seria tema para inúmeras obras de Dalí, e seria sua esposa até morrer, em 1982 (alguns anos antes dele, de quem era 10 anos mais velha).

O retrato de Éluard compõe o acervo do Teatro-Museu Dalí (“o maior objeto surrealista do mundo“, criado pelo próprio Dalí – um artista plástico teatral como ele precisaria mesmo de um Teatro-Museu…), que visitei há alguns dias em Filgueres (pequena cidade onde ele nasceu, vizinha de Barcelona). Na semana seguinte, conheci o Espace Salvador Dalí, em Montmartre (Paris). Quando forem a Barcelona e Paris, respectivamente, não fiquem só com Gaudí, Miró, Picasso, Louvre, Orsay… Sonhar com Dalí – e Éluard – também vale muito à pena.

Éluard_Dalí

Do site Alguma Poesia:

Liberté

Paul Éluard

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Paul Éluard
In Œuvres Complètes
Éditions Gallimard
Paris, 1968

Liberdade

Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome (more…)