Cabral, o descobridor poético do Brasil

É verdade o que ensinam na escola: Cabral descobriu o Brasil. Mas é verdade pela metade: foi o João, não foi o Álvares…

O João das extasiantes descobertas poéticas, do sertão árido do Nordeste, do Recife, da Espanha, dos Severinos, do poema construído e depurado pela aspereza da pedra (do sono?), de galos e ovos engenheirados em poesia arquitetonicamente lapidada.

Anteontem, 9 de outubro de 2009, foi o aniversário de 10 anos da morte de João Cabral de Melo Neto, talvez o maior dos nossos poetas.  Alguns vídeos disponíveis no youtube tratam da sua obra. O Cordel do Fogo Encantado a interpreta no palco:

João, que supostamente não gostava de música e fazia poesia visual, sem melopéia, mas que soube “habitar o flamenco“…

Segundo Manoel de Barros, outro de nossos poetas maiores:

O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela.Tem o ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo”.

Eu tenho quase 22 anos, idade com a qual João publicou seu primeiro livro – Pedra do sono. Isso porque ele começou relativamente tarde no fazer poético! Até os 15 anos de idade, só queria saber mesmo de futebol. Foi o Drummond de Alguma poesia que o despertou: “O Carlos Drummond de Andrade, quando eu o li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele ‘Alguma Poesia’. Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia”.

Talvez o que me impressione mais no mundo cabralino seja sua capacidade de tornar visível a fundo, simultaneamente, o que há de mais concreto e de mais abstrato na realidade e na linguagem. Sabe falar das coisas de uma maneira antimetafísica, fazendo poesia do real, como Alberto Caeiro; mas João Cabral o faz com mais complexidade e sutileza, com um instinto de realidade mais apurado, que não se contenta em contemplar as coisas e descrevê-las poeticamente, mas procura construir poesia com elas. Se Caeiro nos faz contemplar passivamente, Cabral incita-nos à meditação reflexiva e criativa sobre a realidade. Qual realidade? A da natureza, do homem, da cultura, das relações sociais, da linguagem, todas trabalhadas pelo poeta pernambucano sob a perspectiva de busca ilimitada de sua concretitude, com seus olhos de telescópio.

É claro que nessa construção sertaneja, pedregosa, dura, seca e cristalina da realidade poética com as coisas, o poeta está sempre  falando de si também, projetando-se e realizando-se na poesia… João Cabral não precisa, para dar vazão à sua subjetividade poética, fazer uso de sentimentalismo explícito, da função emotiva ou mesmo da exposição de ideias e reflexões abstratas do que expõe. A abstração, a reflexividade, a descoberta, criação e revelação de si consistem na criação de um mundo poético próprio – o máximo a que pode aspirar qualquer artista.

Não gosto dos comentários políticos de Arnaldo Jabor, mas não posso deixar de reproduzir parte substancial deste brilhante artigo no qual ele argumenta que João Cabral, recém falecido, “não brincava de beleza, mas de epistemologia”, tendo criado, por meio de sua poesia, “uma teoria da percepção”:

João Cabral mostrou o que a poesia poderia ser

(…)

Uma das frases mais profundas que conheço sobre a serventia do artista é de Cezanne: ‘Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim’. Essa ligação com a natureza perdida, esse ‘link’ com o passado animal, esse apagamento entre sujeito e objeto, unindo os dois num só bloco, essa humílima renúncia ao sonho individual de uma iluminação inspirada, essa recusa a ser ‘sujeito autônomo’, esse desejo de ser coisa-do-mundo, geológico, essa recusa humilde a uma luz na alma, a ter um ‘centro’, um foco, um ego, tudo isso me lembra João Cabral que poderia dizer também que ele foi ‘a consciência da linguagem se falando nele’.

Por isso me decepcionei com as matérias na imprensa sobre ele, todas mencionando seu desejo de ‘não perfumar a flor, nem poetizar o poema’, todas falando do seu estilo seco, como se ele fosse apenas um faxineiro dos parnasianos e dos palavrosos. João foi muito mais. Ninguém disse que ele era um dos maiores poeta do mundo. Ninguém falou que, com ele, a língua portuguesa, esta esquecida flor, foi mais fundo em direção ao misterioso “Real” que quase nenhuma outra terra já avistada por alguns como John Donne, mais tarde por Francis Ponge, Marianne Moore, gente que não brincava de beleza, mas de epistemologia. João Cabral, para mim, fez uma teoria da percepção.

A primeira coisa que João Cabral me disse, quando o entrevistei em 1992 foi: ‘Eu sinto uma angústia danada; é terrível, porque a gente não sabe de onde vem essa dor’. Senti que ali estava a pista de sua poesia, o preço que ele pagava por sua insana procura de “uma realidade prima e tão violenta, que ao tentar apreendê-la, toda imagem rebenta’. Antes de morrer, ele disse a alguém: ‘Escrevo não para me expressar, mas para preencher um vazio’. Quem tem coragem de entrar nesse vazio? João teve. Que poema foi mais profundo que “Uma faca só lamina”, descrevendo em minúcias figurativas formas inexistentes, balas, facas e relógios invisíveis enterrados em nossas vidas? João teve a obsessão de atingir algo além do tempo e do espaço, uma espécie de sonho kantiano, a vontade louca de ir além do ‘fenômeno’. Às vezes, João parece ter conseguido. João passou a vida com dor de cabeça; não era para menos. Que cabeça agüenta esse esforço permanente de ter dois microscópios nos olhos, de flagrar o decorrer do tempo no alpendre, no canavial, o tempo corroendo as coisas como um vento invisível? (Van Gogh pintou-o e se matou). Como Proust, Cabral também queria ‘geometrizar’ os sentimentos, esquadrinhando-os como objetos concretos, de todos os lados, sem aspiração a espiritualidades e transcendências, sempre comparando matéria com matéria, mostrando que a mulher é igual à fruta, que a praia é o lençol, a bailarina é a ‘égua e o cavaleiro’, que o rio tem dentes podres, o cão não tem plumas, a alma do miserável é feita de pano sujo de aniagem e que ‘nós somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos’, como disse outro gênio.

(…) E João Cabral continuou: ‘Saio do poema suando, com picareta. Minha obra é motivo de angústia. O sujeito tem de viver no extremo de si mesmo. Eu vejo isso na tourada. O bom toureiro é o que dá a impressão ao público de que vai morrer’. João nem parece um artista; parece cientista, matemático, o que fortalece seu fundo sopro lírico, domado, reprimido, mas circulando como sangue dentro da pedra. João Cabral fez a poesia mais profunda sobre o Brasil, a mais ‘política’ também, sem gritos conteudistas, sem apelos contra a injustiça, apenas com uma discretíssima compaixão. Sua legitimação epica e crítica vem das palavras, da forma, com em Maiakovski. (…)

João Cabral, o educador:

“A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
[pela de dicção ela começa as aulas].
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra [de fora para dentro,
Cartilha muda], para quem soletrá-la.

2.

Outra educação pela pedra: no Sertão
[de dentro para fora, e pré-didática].
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.”

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