11 de setembro – À memória de Victor Jara

Acabo de publicar no blog do Grupo Brasil e Desenvolvimento:

11 de setembro – À memória de Victor Jara

Vientos de pueblo, por Victor Jara:

“(…) Pinochet deu o golpe truculento em 11 de setembro de 1973. Nesse dia o estádio de futebol de Santiago foi usado como campo de concentração para a prisão de milhares de chilenos. Entre eles estava um jovem compositor de música popular, líder do movimento chamado Nueva-Canción.

Esse é o mesmo movimento que em Cuba recebeu o nome de Nueva-Trova e que no Brasil foi chamado Música de Protesto. Na América Latina, participando daquele movimento estético e político, se destacavam jovens músicos na faixa dos 20 anos de idade: Silvio Rodriguez, Pablo Milanez, Chico Buarque, Carlos Varella, Benjamin Acevedo e aquele jovem prisioneiro de Pinochet: Victor Jara.

No estádio de futebol, Victor estava com seu violão. Para confortar os compatriotas prisioneiros no campo-de-futebol-concentração, ele começou a tocar seu instrumento. Os militares mandaram ele parar de tocar. Ele não parava. Agarraram-no e o arrastaram para um canto. Executaram cruelmente o único recurso que não mais lhe permitiria tocar violão: com um facão cortaram as duas mãos de Victor. Seus gritos ecoaram no estádio. Mas, teimosa e bravamente, Victor misturava seus gritos a cantos melancólicos com alguns versos fortes e de protesto de suas canções. Aqueles trechos musicais lancinantes de conhecidas melodias da Nueva-Canción, que haviam embalado a campanha presidencial de Salvador Allende, precisavam ser calados pelos milicos. Um tiro na cabeça do Victor Jara sem mãos, sangue aos borbotões saindo de pulsos dilacerados, acabou com uma das maiores promessas da música latinoamericana.
Pela memória do músico Victor Jara, assassinado em 11 de setembro de 1973.

Acima, fragmento de texto do maestro Jorge Antunes, compositor e professor da UnB.

(Segundo a Wikipédia, Victor Jara de fato foi preso no dia 11 de setembro de 1973, data do golpe contra Salvador Allende; seu bárbaro assassinato pelos comandados de Pinochet, no entanto, teria ocorrido no dia 16.)

A cada 11 de setembro, lembremo-nos do golpe que, com apoio dos Estados Unidos, derrubou o governo de esquerda de Allende, democraticamente eleito para governar o Chile, e instaurou em seu lugar um regime autoritário genocida. Lembremo-nos dos porões de tortura das ditaduras brasileira, argentina, chilena, paraguaia…

Não nos esqueçamos de que a ditadura brasileira não foi apenas uma quartelada militar: era um regime civil-militar, sustentado pelas grandes potências capitalistas (época do auge de Guerra Fria) e pelo grande empresariado nacional, com o apoio e cumplicidade de diversos segmentos sociais.

Lembremo-nos, sobretudo, dos bravos e das bravas lutadores e lutadoras, operários e operárias, camponeses e camponesas, artistas, professores, jornalistas, estudantes, políticos que resistiram à opressão então imposta pelas classes dominantes da América Latina.

Lembremo-nos de Victor Jara, Honestino Guimarães, Vladimir Herzog, Alexandre Vannucchi Leme e de tantos outros assassinados anônimos nos porões de tortura, como Olavo Hansen (já perceberam que costumamos nos lembrar dos estudantes, políticos, artistas, intelectuais e profissionais liberais perseguidos, mas não dos operários?).

Merece louvor a atuação da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça, criada no governo Fernando Henrique Cardoso (na gestão do Ministro José Gregori), e cuja atuação ganhou uma dimensão mais pedagógica durante o governo Lula, com iniciativas brilhantes como a Caravana da Anistia e a Revista Anistia Política.

O processo de consolidação da democracia no Brasil não está terminado, e não poderá terminar jamais: a democracia é uma invenção permanente que não pode existir sem a memória do passado de totalitarismo e autoritarismo, que se faz sempre presente como risco e tentação constantes.

Deixo-os com mais uma música de Victor Jara, e algumas outras indicações de  canções suas:

Estadio Chile

Manifiesto (da Canción nueva)

Así como hoy matan negros

Marcha de los pobladores

El hombre es un creador

Uma resposta to “11 de setembro – À memória de Victor Jara”

  1. Edemilson Paraná Says:

    A música de Victor Jara é realmente fantástica!

    E sim, o autoritarismo, como vc disse, “se faz sempre presente como risco e tentação constantes”. Esse post tem, portanto, um papel importantíssimo.

    Não só de WTC vive o 11 de setembro!

    forte abraço

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