Love or law?

Posto hoje texto que uma amiga escreveu quando estávamos no 3º semestre da Faculdade, em 2006, e cursávamos a disciplina Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica. O professor Alexandre Araújo Costa pediu para que cada um respondesse à pergunta “O que é o direito?”, sendo francamente estimulado que os alunos respondessem aquilo que autenticamente pensavam e sentiam. A Mayra então escreveu este texto (que publico aqui com a sua autorização, claro), que, nas palavras (da época) de outro grande amigo, o João Paulo, “conseguiu expressar lindamente a torrente de sensações e indagações que dilacera esse reles ser que vos tecla e também os nobres e queridos colegas”.

(Quanto ao título do post, agradecimentos à @gabirondon, pela indicação via twitter do belíssimo poema “Law, Like Love” – “O Direito, como o Amor”, de H.W. Auden, traduzido por Henrique Araújo Costa).

O que é direito? – Por Mayra Cotta (2006)

Muito curioso ser perguntada sobre o que é Direito e hesitar em responder mesmo após um ano frequentando um curso universitário com esse nome. Acredito não ser possível chegar a uma definição. Sem querer entrar em toda aquela questão que envolve os problemas trazidos por definições, encontro as justificativas para tal impossibilidade ao verificar que, desde o momento em que fiz minha opção para o vestibular até o instante em que toco nas teclas de meu computador, minha idéia do que é Direito já mudou e se transformou por volta de dezessete mil quinhentas e vinte e duas vezes. E, provavelmente, durante o tempo transcorrido entre a impressão e a entrega dessas folhas, o conteúdo delas ficará desatualizado.

Durante o segundo grau, o Direito nada mais foi pra mim que um amontoado de códigos com folhas amarelas e cheias de poeira; um curso escolhido por pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno (mesmo nos dias quentes e secos de agosto!) e que adoram manter em seus vocabulários palavras caquéticas, que não foram usadas sequer uma dúzia de vezes em toda a história da língua portuguesa. A única explicação encontrada para ser o Direito um curso tão popular entre os jovens era a irresistível atração, especialmente urdida por todos os pais preocupados com a futura segurança financeira dos filhos, exercida pelos concursos públicos – faz Direito, meu filho, e se você não der certo em mais nada, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público. Maravilha!

Mas eu só queria entrar na Universidade. Poderia ser qualquer curso, qualquer um mesmo, eu queria apenas estar lá dentro. O estudo me encanta e o ambiente universitário exerce sobre mim uma sedução impossível de ser ignorada. Eu me imaginava, após passar no vestibular, como sendo iniciada num universo novo, cheio de possibilidades, inclusive a de mudar o mundo. Optei pelo Direito. Afinal, se nada der certo, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público.

Passei pra Direito. Ah, como me apaixonei pelo curso nesse primeiro ano! Por meio dele fui apresentada aos mais diversos autores e me foram trazidas instigantes questões as quais eu sequer desconfiava da existência. Ao longo desse ano, foi se formando em mim a idéia de um Direito todo-poderoso – apesar de a minha opinião sobre as pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno não ter mudado. Vi o quanto o Direito está presente no homem e o quanto a sociedade depende dele. Comecei a enxergar toda a evolução da História ocidental pela ótica do Direito e conheci como grandes mentes trataram do tema de maneira brilhante ao longo dos séculos. A partir daí, passei a encontrar o Direito em tudo. Era como se a todo momento eu o estivesse respirando. Muito além de um forma de ordenar a sociedade, o Direito era a própria sociedade se manifestando em uma de suas formas mais belas.

Um coisa, porém, me assustava. Era frequente o conselho de veteranos no sentido de que eu não precisava me preocupar com essa chatice do primeiro ano porque a parte boa e realmente importante ainda estava por vir. Parte boa e realmente importante? Então eu havia sido enganada e Direito não era nada daquilo que tinha visto?

Uma resposta a essas perguntas começou a ser delineada quando numa das primeiras aulas desse semestre um professor disse em toda a sua elegância que “Direito é código, ponto”. Um pensamento aterrador passou por mim: a magia havia acabado. Finalmente eu entraria no mundo no qual Direito e lei são sinônimos, onde é impossível estudar qualquer assunto sem um código à mão. Desesperador! Não, não pode ser isso.

Me encontro, nesse exato momento, como num vácuo entre experiências que acredito que serão bem diferentes uma da outra. Encerro a fase inicial que me encanta e adentro o mundo dos códigos. Ainda tenho em mim fresca a doce lembrança do Direito pelo qual me apaixonei durante o primeiro ano na Universidade e me preparo para o bombardeio de leis que está por vir. Mas serei forte. Aprenderei os códigos e entenderei o Direito como sistema, sem deixar, porém, que se apaguem em mim os encantos da época de caloura. Penso agora no Direito como algo vivo, grande, que existe para a sociedade e a partir da sociedade. Algo que ainda me oferecerá inúmeras possibilidades, inclusive a de mudar o mundo.

O que é Direito, Mayra Cotta
por Mayra Cotta – quarta, 3 maio 2006, 18:04

Muito curioso ser perguntada sobre o que é Direito e hesitar em responder mesmo após um ano frequentando um curso universitário com esse nome. Acredito não ser possível chegar a uma definição. Sem querer entrar em toda aquela questão que envolve os problemas trazidos por definições, encontro as justificativas para tal impossibilidade ao verificar que, desde o momento em que fiz minha opção para o vestibular até o instante em que toco nas teclas de meu computador, minha idéia do que é Direito já mudou e se transformou por volta de dezessete mil quinhentas e vinte e duas vezes. E, provavelmente, durante o tempo transcorrido entre a impressão e a entrega dessas folhas, o conteúdo delas ficará desatualizado.

Durante o segundo grau, o Direito nada mais foi pra mim que um amontoado de códigos com folhas amarelas e cheias de poeira; um curso escolhido por pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno (mesmo nos dias quentes e secos de agosto!) e que adoram manter em seus vocabulários palavras caquéticas, que não foram usadas sequer uma dúzia de vezes em toda a história da língua portuguesa. A única explicação encontrada para ser o Direito um curso tão popular entre os jovens era a irresistível atração, especialmente urdida por todos os pais preocupados com a futura segurança financeira dos filhos, exercida pelos concursos públicos – faz Direito, meu filho, e se você não der certo em mais nada, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público. Maravilha!

Mas eu só queria entrar na Universidade. Poderia ser qualquer curso, qualquer um mesmo, eu queria apenas estar lá dentro. O estudo me encanta e o ambiente universitário exerce sobre mim uma sedução impossível de ser ignorada. Eu me imaginava, após passar no vestibular, como sendo iniciada num universo novo, cheio de possibilidades, inclusive a de mudar o mundo. Optei pelo Direito. Afinal, se nada der certo, há sempre a possibilidade de fazer um concurso público.

Passei pra Direito. Ah, como me apaixonei pelo curso nesse primeiro ano! Por meio dele fui apresentada aos mais diversos autores e me foram trazidas instigantes questões as quais eu sequer desconfiava da existência. Ao longo desse ano, foi se formando em mim a idéia de um Direito todo-poderoso – apesar de a minha opinião sobre as pessoas que não perdem a oportunidade de usar um terno não ter mudado. Vi o quanto o Direito está presente no homem e o quanto a sociedade depende dele. Comecei a enxergar toda a evolução da História ocidental pela ótica do Direito e conheci como grandes mentes trataram do tema de maneira brilhante ao longo dos séculos. A partir daí, passei a encontrar o Direito em tudo. Era como se a todo momento eu o estivesse respirando. Muito além de um forma de ordenar a sociedade, o Direito era a própria sociedade se manifestando em uma de suas formas mais belas.

Um coisa, porém, me assustava. Era frequente o conselho de veteranos no sentido de que eu não precisava me preocupar com essa chatice do primeiro ano porque a parte boa e realmente importante ainda estava por vir. Parte boa e realmente importante? Então eu havia sido enganada e Direito não era nada daquilo que tinha visto?

Uma resposta a essas perguntas começou a ser delineada quando numa das primeiras aulas desse semestre um professor disse em toda a sua elegância que “Direito é código, ponto”. Um pensamento aterrador passou por mim: a magia havia acabado. Finalmente eu entraria no mundo no qual Direito e lei são sinônimos, onde é impossível estudar qualquer assunto sem um código à mão. Desesperador! Não, não pode ser isso.

Me encontro, nesse exato momento, como num vácuo entre experiências que acredito que serão bem diferentes uma da outra. Encerro a fase inicial que me encanta e adentro o mundo dos códigos. Ainda tenho em mim fresca a doce lembrança do Direito pelo qual me apaixonei durante o primeiro ano na Universidade e me preparo para o bombardeio de leis que está por vir. Mas serei forte. Aprenderei os códigos e entenderei o Direito como sistema, sem deixar, porém, que se apaguem em mim os encantos da época de caloura. Penso agora no Direito como algo vivo, grande, que existe para a sociedade e a partir da sociedade. Algo que ainda me oferecerá inúmeras possibilidades, inclusive a de mudar o mundo.

Uma resposta to “Love or law?”

  1. Lucas Vieira Says:

    Texto brilhante! Fiquei com um nó na garganta, já estou no 8º semestre do curso de Direito (num curso de 10) e fico sem palavras diante de tal texto. Comecei a me lembrar da época de calouro, e os sonhos de transformação. Pouco-se transformou como queria, pouco fiz como achei que deveria, mas vejo que sairei transformado justamente por apesar de tudo, resisti com meus sonhos. Mesmo que, infelizmente, muitas vezes tenham ficados apenas nos sonhos (compartilhados ou não).

    Como diria Milton Nascimento “sonhos não envelhecem”, e foi justamente este o tema de uma semana que um grupo que faço parte na Universidade em que estudo (coraje), justamente pra alertarmos que a transformação do Direito, e a sua utilização para transformação social só se dará enquanto não deixarmos os sonhos morrerem.

    Não sei se conseguimos dar o recado. Mas tentamos. Resistimos.

    bom texto! parabéns pelo blog.

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