Realismo utópico: why not?

Assistindo a um discurso de Ted Kennedy, o grande senador americano que faleceu anteontem, lembrei-me de uma bela frase divulgada por seu irmão Robert Kennedy, durante a campanha presidencial na qual seria assassinado:

Some men look at things as they are and ask, ‘why?’. Others look at things as they could be and ask, ‘why not?’“.

A frase sintetiza o espírito crítico, não-conformista, imaginativo, criativo, utópico de todos os tempos: olhar para o mundo como aquilo que ele pode tornar-se, expandir a ideia de realidade para campo de possibilidades do real. Sonhar com o impossível e dispor-se a construi-lo.

realismoutopico

UnB, 2008, durante o processo de ocupação da Reitoria

Colo abaixo trecho de artigo que escrevi em 2007 sobre a experiência da ONG/Projeto de Extensão Universitários Vão à Escola, da UnB:

“A universidade tem de questionar constantemente a si mesma, examinando com independência e lucidez o saber que produz ou deixa de produzir, o papel que ocupa na sociedade, os condicionantes e efeitos de sua atuação. Sempre cabe pensar sobre as perguntas que Darcy Ribeiro fez em discurso proferido há mais de vinte anos aqui na UnB: “Universidade de Brasília, para quê? Universidade Brasília, para quem?”[1].

Para Darcy, a universidade, além de ter de ser crítica e autocrítica, teria que ser um espaço privilegiado para pensar o Brasil e formular e perseguir utopias. Mais uma vez, concordamos com ele: a universidade deve ser o lugar da utopia. Eis uma frase que soa paradoxal: como um lugar poderia ser o lugar do não-lugar?[2] A contradição, no entanto, é apenas aparente, porque “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”[3]. A idéia de universidade funda-se no compromisso com a diversidade de pontos de vista, de pensamentos, de saberes, de modos de ser e de agir. Nela, não pode haver espaço para a intolerância e para o pensamento único; devem proliferar perspectivas diferentes e opostas, que permitam o conhecimento do mundo em sua inesgotável complexidade. Por isso, a universidade é o lugar de todos os lugares, inclusive daqueles que não existem.

Trata-se de um local que aspira “a inventar um outro lugar, uma heterotopia, se não mesmo uma utopia”[4]: a universidade tem a função de imaginar, de pensar o que não existe, o não-lugar, o outro, o novo. Os grandes fins da universidade são reproduzir e criar conhecimentos; não há criação sem imaginação, por isso a universidade é local privilegiado para a formulação de utopias e para a reflexão sobre elas.

Universidade não pode ser, portanto, lugar para conformismo acrítico – freqüentemente escondido sob a capa de pretensa neutralidade ou de suposto realismo. Se a ciência tem a função de compreender a realidade, não pode se limitar a conhecer o que existe, porque a realidade abrange as possibilidades e alternativas potencialmente existentes. Caso reduzamos a realidade ao que existe, teremos uma visão já de antemão parcial, ficando desprezada uma parte importante do objeto de estudo. Edgar Morin adverte que “importa não ser realista no sentido trivial (adaptar-se ao imediato), nem irrealista no sentido trivial (subtrair-se às limitações da realidade); importa ser realista no sentido complexo: compreender a incerteza do real, saber que há algo possível ainda invisível no real”[5]. No mesmo sentido, Boaventura de Sousa Santos explica que

“[a] realidade qualquer que seja o modo como é concebida é considerada pela teoria crítica como um campo de possibilidades (…) A análise crítica do que existe assenta no pressuposto de que a existência não esgota as possibilidades da existência e que portanto há alternativas susceptíveis de superar o que é criticável no que existe. O desconforto o inconformismo ou a indignação perante o que existe suscita impulso para teorizar a sua superação”.

O desconforto, o inconformismo e a indignação perante a situação de Itapoã suscitaram em estudantes de Direito da UnB o impulso imediato não para a teorização, mas para a ação. Moveu-os um anseio utópico de transformação social e uma concomitante repulsa a discursos pretensamente transformadores, porém descolados da realidade e de ações realizadoras de mudanças concretas. Francis Bacon disse que “os filósofos elaboram leis imaginárias para comunidades imaginárias e seus discursos são como estrelas que dão pouca luz por estarem muito altas”[6]; utopias como essas não são as nossas.

A utopia que inspira o projeto Universitários Vão à Escola é de outro tipo. Encaixa-se na definição de Boaventura de Sousa Santos, segundo a qual a “utopia é, assim, o realismo desesperado de uma espera que se permite lutar pelo conteúdo da espera, não em geral mas no exacto lugar e tempo em que se encontra”[7]. A nossa utopia não está junto às estrelas altas e distantes criticadas por Bacon. Não estamos distantes de Itapoã, nem produzimos discursos superiores à realidade; não sobrepomos a ela a camisa-de-força de quaisquer teorias absolutas. Tampouco nos pretendemos a luz daquela comunidade. A UVE nasceu do chão da realidade, do chão não pavimentado que pisamos em Itapoã; a partir dele pensamos, sobre ele agimos. O projeto se faz pelo contato com essa realidade, pela relação entre os estudantes da UnB e as pessoas de Itapoã.

Esta é a importância da extensão para a universidade. Discursos, teorias e profissionais passam a se formar a partir da relação estreita com outros segmentos da sociedade. Isso não significa que na universidade não se devam desenvolver pesquisas desprovidas de aplicação prática perceptível, ou que não possam ser compartilhadas com a comunidade externa. Não se deve exigir, por exemplo, que um pesquisador deixe de estudar um assunto extremamente abstrato, de alta complexidade técnica, apenas porque não há aplicação aparente daquele conhecimento no momento, ou porque ele não pode ser compartilhado com a comunidade externa (devido à sua extrema tecnicalidade, que o torna compreensível apenas num meio acadêmico restrito). Uma exigência de tal modo absurda poria fim à autonomia da universidade, à sua singular função social de pesquisar livremente todos os campos do saber humano. A questão é outra: a centralidade da extensão decorre do fato de ela ser meio para que a universidade aplique seus conhecimentos de modo criativo para transformar a realidade social em conjunto com a comunidade externa; para que se produza novo conhecimento sobre essa intervenção; para que o estudante, o professor e o pesquisador incorporem ao seu trabalho a permanente consciência crítica sobre a função desempenhada pelo seu conhecimento na sociedade, sobre as formas como esse conhecimento é e deve ser apropriado e utilizado.

Assim, a relação entre universidade e comunidade externa deve ser estreita, porém, não promíscua ou anuladora de sua singularidade, como aquela existente de modo geral entre partidos políticos e movimento estudantil, ou como a que ocorre em alguns casos entre empresas e pesquisa científica. A universidade não deve em nenhum caso abrir mão de sua autonomia nem de sua atitude crítica e imaginativa.

Essa é a postura que a UVE busca adotar. A nossa utopia é uma sociedade democrática em que todas as pessoas sejam plenamente cidadãs, tenham concretamente assegurados os seus direitos fundamentais. Decidimos lutar em Itapoã por essa utopia, e a arma que escolhemos foi a educação de crianças e adolescentes.


[1] RIBEIRO (1986, p. 9).

[2] Utopia, etimologicamente, significa não-lugar, conforme explica o Dicionário Aurélio. “Utopia: Do lat. mod. utopia < gr. o oÏ, ‘não’, + gr. tópos, ‘lugar’, + gr. -ía, (v. -ia1)”.

[3] A frase é do professor Carlos Newton Júnior.

[4] SANTOS (2005).

[5] MORIN (2002, p. 85).

[6] BACON apud CARR.

[7] SANTOS (2005, p. 36).

Concordamos com Darcy Ribeiro: “o saber ou a técnica, por competentes que sejam, nada significam, se não se perguntam para que e para quem existem e operam”[1].


[1] RIBEIRO (1986, p. 10).

4 Respostas to “Realismo utópico: why not?”

  1. Paulo Rená Says:

    Conhece o “idealismo pragmático“? =)

  2. André Gomes Says:

    Isso me lembra o discurso de um pensador contemporâneo, amigo de Tommy O´hara. Paul Silbert, um grande cara.

  3. Carlos Says:

    Paul Silbert, o pseudônimo do Jean Leviton?

  4. A Universidade na encruzilhada dos serviços públicos no Brasil « Brasil e Desenvolvimento Says:

    […] as externalidades. A universidade pública desempenha funções relevantes que dificilmente podem ser delegadas inteiramente a instituições privadas. Em especial, no […]

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