No que crêem os que não crêem?

Escrevi o texto abaixo em 2006, como trabalho para a disciplina “Modelos e Paradigmas da Experiência Jurídica”, ministrada pelo professor Alexandre Araújo Costa (ele nos pediu para fazer uma afirmação qualquer sobre o direito e em seguida justificar se, e como, seria possível afirmar que ela era verdadeira). Mudei o título (fazendo uma referência ao livro que registra diálogos entre Umberto Eco e Carlo Maria Martini), cortei um pequeno trecho e publiquei-o num blog em 2007, quando constatei com algum espanto que, embora o texto já tivesse mais de um ano, eu não mudara de opinião desde então sobre o assunto tratado nele. Três anos depois, mantenho a mesma visão, a mesma atitude proposta pelo texto, embora talvez hoje seja capaz de elaborá-la um pouco melhor (em breve espero publicar um texto a respeito aqui).

A figura abaixo é uma litografia de Escher. São fascinantes todas as suas obras que trabalham o tema paradoxo, mas gosto especialmente desta (e ela tem tudo a ver com o texto abaixo) porque mostra o paradoxo da autoconstituição. Eu constituo a mim mesmo – ou, melhor dizendo, nós constituímos a nós mesmos. A imagem sintetiza o que penso sobre a verdade, desde um ponto de vista hermenêutico-existencial, de autofundação; e também, aliás, sobre Constituição, processo constituinte e povo.

Quem é o povo que fala nas Constituições? Quem é o “We, the people”  que dá início à Constituição  norte-americana? Em interessantíssimo debate na Faculdade de Direito da UnB no semestre passado , o professor Cristiano Paixão citava um texto de Derrida no qual ele dizia que o povo americano passou a existir justamente pelo próprio ato de dar-se a sua Constituição: o povo passa a existir como ente político a partir do momento em que se assume como sujeito político, num processo simultâneo  e recíproco (Constituição-povo) de autocriação; é o ato de constituir-se que o constitui (preciso ler ainda esse texto de Derrida, então ignorem terminologias imprecisas de minha parte).  Povo, Constituição, liberdade política, fundação, natalidade… Este é assunto para outro post, em que pretendo explorar algumas ideias de Hannah Arendt, Rosenfeld, Habermas e Derrida. Agora, deixemos de lado a digressão constitucional (que não foi gratuita, mas devida à minha intenção de demonstrar a conexão hermenêutico-existencial entre os dois temas) e voltemos à verdade:

escher-drawinghands

No que crêem os que não crêem?

“Brincadeira de criança, as opiniões humanas.”

Heráclito [1]

Rodrigo S. M., narrador de A hora da Estrela [2] , tem razão quando diz que “a verdade é sempre um contato interior e inexplicável”: não sei explicar porque creio naquilo em que creio, o fato é que creio – “Pensar é um ato. Sentir é um fato”.

Por que creio em algo? A melhor resposta talvez fosse: creio porque creio. Esse juízo decorre de uma valoração subjetiva, uma intuição instintiva, assim como qualquer outro que pudesse fazer. Isso não significa que não forme minhas opiniões influenciado também – e predominantemente – por argumentos racionais; mas crer na razão é também subjetivo e intuitivo, de modo que apenas às vezes escolhemos ser (ou acontece de sermos) convencidos por ela.

Mas o “porque sim” ou o “creio porque creio” não costuma convencer as outras pessoas – vontade que nós costumamos ter. Para persuadir alguns, temos que dar ao nosso discurso uma aparência racional; outros poderão concordar conosco se apresentarmos argumentos de autoridade; outros poderão ser convencidos por uma poesia ou uma imagem.

É difícil evitar os exageros de posições extremistas: por um lado, a tentação de transformar a nossa visão sobre determinado assunto “na verdade” sobre ele; por outro, a de se negar que nossas opiniões tenham qualquer validade ou utilidade. O primeiro ponto de vista ignora que o conhecimento humano é uma criação humana e, como tal, incompleto, histórico, valorativo, subjetivo, cultural… O segundo compreende o que o primeiro ignora, mas, depois de negar o conhecimento absoluto, acaba por negar também o relativo, não o afirmando como conhecimento.

Sendo o conhecimento humano, demasiado humano, ele não é absoluto, mas isso não o invalida; é esse conhecimento que criamos e utilizamos – “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”, disse Terêncio [3] . Desprezar nossas verdades relativas e falhas pelo fato de elas não serem divinas (absolutas) é para quem quer ser Deus. Eu sou humano. Se não há verdade absoluta, se “a verdade é dividida em metades diferentes uma da outra”, como disse Drummond, isso não nos impede de optar pela nossa; cada um “conforme seu capricho, seu ilusão, sua miopia”.

Brinquemos, então, de criar e escolher verdades – mas a sério, com a seriedade com que brinca uma criança. Nunca nos esqueçamos de que nossas verdades são produto de uma brincadeira de criança. E nunca nos esqueçamos de que tal brincadeira é o que fazemos de mais sério em nossas vidas.

Eu, de acordo com o meu astigmatismo, vou escolhendo as metades que me agradam.

P.S.:

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

[A porta da verdade? Lembremos do próprio Drummond:

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta” …

“E agora, José?”

“E agora, você?”]


[1] Citado por Michel Maffesoli em A parte do diabo (São Paulo: Record, 2004, p. 12).

[2] Romance de Clarice Lispector.

[3] Citado por Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte.

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2 Respostas to “No que crêem os que não crêem?”

  1. Carlos Says:

    Muito bom o post! Gostei bastante!
    Keep up the good work!

  2. O Brasil que nasce da rua: o desenvolvimento desde a planície « Brasil e Desenvolvimento Says:

    […] dá-se pelo processo cívico de engajamento coletivo na construção política da sociedade (e de autoconstituição do próprio povo). Essa identidade, numa democracia, é necessariamente dinâmica, aberta, reconstruída por meio de […]

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