Liberdade surrealista: Éluard-Dalí

Conheci este famoso poema na aula de francês, há umas duas semanas. Éluard o escreveu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando participava da resistência à invasão nazista na França. Isso torna o poema ainda mais especial, embora ele tenha transcendido a ocasião que impulsionou seu nascimento, comunicando uma mensagem universal de libertação.

Encontrei na internet uma tradução para o português à sua altura, feita por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade ainda nos anos 40. Aí vão as duas versões. A imagem é o Retrato de Paul Éluard, pintura de Salvador Dalí, de 1929, ano em que o poeta francês e o jovem gênio catalão conheceram-se, para o bem do surrealismo que ambos inauguravam. A comunhão estética entre eles era tanta, que Dalí acabou apaixonando-se e casando-se, logo em seguida, com Gala, a russa com quem Éluard era casado… O poeta continuou amigo de Dalí e de sua ex-esposa, claro; deve ter encarado tudo com muita naturalidade, num mundo afinal surrealista. Gala Éluard Dalí seria tema para inúmeras obras de Dalí, e seria sua esposa até morrer, em 1982 (alguns anos antes dele, de quem era 10 anos mais velha).

O retrato de Éluard compõe o acervo do Teatro-Museu Dalí (“o maior objeto surrealista do mundo“, criado pelo próprio Dalí – um artista plástico teatral como ele precisaria mesmo de um Teatro-Museu…), que visitei há alguns dias em Filgueres (pequena cidade onde ele nasceu, vizinha de Barcelona). Na semana seguinte, conheci o Espace Salvador Dalí, em Montmartre (Paris). Quando forem a Barcelona e Paris, respectivamente, não fiquem só com Gaudí, Miró, Picasso, Louvre, Orsay… Sonhar com Dalí – e Éluard – também vale muito à pena.

Éluard_Dalí

Do site Alguma Poesia:

Liberté

Paul Éluard

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Paul Éluard
In Œuvres Complètes
Éditions Gallimard
Paris, 1968

Liberdade

Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

In R. Magalhães Jr.
Antologia de Poetas Franceses
(do Século XV ao Século XX)

Gráfica Tupy, Rio de Janeiro, 1950

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3 Respostas to “Liberdade surrealista: Éluard-Dalí”

  1. Dailor dos Santos Says:

    Simplesmente espetacular a lembrança do poema de Éluard! E mais ainda a menção a Dalí…Nada contra Gaudí, Miró, Picasso…etc etc etc…

    Mas concordo: Dalí tem muito mais a dizer do que até hoje conseguimos interpretar…O surrealismo, na verdade, tem muito mais a dizer…

    João, parabéns por esse post no seu blog…

    Para finalizar – em especial para aqueles (e sempre há um!) que insistem em não compreender as potencialidades que o surrealismo oferta – uma frase de Marcuse:

    O surrealismo é a linguagem da imaginação.

    Liberdade sem imaginação? Difícil…

    Direito, Política e Ética no séc. XXI sem imaginação? Impossível…

    parece que o que de fato nos falta é a ‘imersão’ nesse “novo” idioma…

    …para quem sabe traduzi-lo como possibilidade de ruptura e reconstrução.

    Parabéns novamente, João.

    ((e já aproveito o ensejo para convidá-lo – e a todos que se interessam pelo tema – a visitar o blog MEMÓRIA POLÍTICA E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: http://memoria-politica.blogspot.com/))

    Dailor dos Santos.

  2. Alexandre Says:

    Esse é mesmo um poema inspirador.
    Não consigo lê-lo senão com o ritmo de uma prece. Tem nele algo de religioso, e a coisa mais próxima que ele me evoca é o “Credo” católico.
    Um ritmo de revolta e a repetição que afirma o sentimento inevitável.
    Algo nele me lembra o Guernica de Picasso, o desespero da guerra, o desterrar da razão que exige que a gente fixe no mundo pontos para se segurar.
    Um poema que poderia ser escrito por Sísifo, e gosto mais dele quando penso nisso.

  3. Lucy Says:

    Me encanta este lugar. Cada vez que viajo all quedo anodadada. Es imposible dejar de hacer fotos cada vez que estoy ah. Enhorabuena por el blog

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